Ideias para Debate

Friday, April 29, 2005

Enquanto...

Enquanto os debates vão continuando, também continuo a publicar os artigos do Elisio Macamo sobre como eles devem decorrer. Assim os leitores do blog têm a teoria e a prática lado a lado. Ou, dito em termos de marketing, dois pelo preço de um.
Aqui vai o texto segtuinte:

Erros na argumentação (8)

Sem exemplos concretos as coisas que veem sendo escritas aqui podem parecer demasiado abstractas.
Li, recentemente, uma entrevista a um político que, indagado se os grandes projectos podiam desempenhar um papel significativo na redução da pobreza absoluta, respondeu que sim porque havia uma medida, o rendimento per capita, cujo aumento pressupõe o aumento dos níveis de produção e de produtividade. Segundo ele, os grandes projectos contribuem para esse efeito. Instado a pronunciar-se sobre a utilidade do rendimento per capita como medida uma vez que, na opinião do jornalista, esses projectos deixam muito pouco dos seus lucros em Moçambique, deu uma resposta com duas vertentes. Primeiro, o político lamentou o facto de, por um lado, se querer atrair investimento e, por outro, dizer, uma vez chegado o investimento, que não é o que queríamos. Segundo, ele disse que não estava a dizer que os grandes projectos iriam resolver toda a situação de pobreza do país.
Vamos analisar o argumento como forma de demonstrar o tipo de erros possíveis na argumentação. Para esse efeito, precisamos de resumir o argumento de forma mais clara. Isso significa que temos que identificar a conclusão bem como as razões sobre as quais ela assenta.
O argumento é um pouco complicado, mas é fácil identificar a conclusão: os grandes projectos podem desempenhar um papel significativo na redução da pobreza absoluta. É também fácil identificar as razões, ou melhor a razão porque é mesmo duma só que se trata: os grandes projectos aumentam o rendimento per capita. Esta razão baseia-se noutro conjunto de premissas que podemos, para melhor discussão ainda, indicar: o aumento do rendimento per capita significa que houve aumento de produção e produtividade no país. Subentende-se aqui que o aumento de produção e produtividade tem impacto no nível de vida das populações. Isto é, quando o rendimento per capita aumenta, aumenta também o bem estar das pessoas.
Temos, pois, um argumento impecável. Estamos em presença duma conclusão que se apoia em razões fortes. Podemos formular uma espécie de lei para mostrar a validade do argumento: (a) tudo o que aumenta o rendimento per capita ajuda a combater a pobreza absoluta; (b) os grandes projectos aumentam o rendimento per capita, (c) logo, os grandes projectos ajudam a combater a pobreza. É assim que Sherlock Holmes teria argumentado. Ser válido, contudo, não significa ter razão ou estar correcto. Significa apenas que do ponto de vista lógico o argumento é sólido. Se não concordamos com a ideia de que os grandes projectos ajudam a reduzir a pobreza absoluta não podemos refutar a ideia dizendo apenas que é mentira, os grandes projectos não ajudam nada a reduzir pobreza que for.
Temos que dirigir a nossa atenção às razões porque elas é que explicam a conclusão. Será mesmo verdade que o aumento do rendimento per capita tem esse impacto no nível de vida das pessoas? Será essa medida exacta?
O jornalista, muito atento, colocou exactamente esta pergunta ao político: não será o rendimento per capita uma medida artificial, perguntou ele. Aqui o político deitou por terra os ganhos feitos na sua argumentação anterior. Ele preferiu dar uma resposta completamente irrelevante para o assunto em questão. Lamentou que as pessoas quisessem atrair investimento para depois, com o investimento já no país, reclamar que não é o que queriam; em segundo lugar, limitou o alcance da sua afirmação anterior.
Vamos por partes. A segunda parte da resposta é perfeitamente legítima. É sempre melhor limitar o alcance das nossas conclusões porque nunca podemos realmente dispor de toda a informação que é necessária para ter a certeza sobre o que dizemos. É justamente por causa disso que os ingleses pelo menos muito raramente fazem afirmações categóricas. Eles começam todas as frases com “parece que...”, “isto sugere que...”, “pela aparência...”, etc. São cuidadosos. Portanto, responder ao jornalista dizendo que os grandes projectos não vão resolver toda a situação de pobreza é prudente e devia, até, ter sido feito logo no início. Mas isso ainda não responde à pergunta feita, nomeadamente se o rendimento per capita é uma boa medida ou não. A primeira parte da resposta é problemática porque irrelevante. O facto de as pessoas não saberem o que querem não diz nada sobre a utilidade do rendimento per capita como medida. É, portanto, despropositado.
Para ser coerente o político devia voltar às razões que deu tornando algumas pressuposições implícitas mais explícitas. Por exemplo, ele diz na entrevista, antes da interpelação, que a medida “é aceite” como conveniente. Ele podia dizer quem são as pessoas que a aceitam como conveniente. Economistas? Organismos das Nações Unidas? O Banco Central? A partir da autoridade dos que a aceitam como conveniente ele podia contrariar a ideia de que a medida seja artificial. Ele podia dizer que essas instituições não podem estar enganadas. Se quisesse ser ainda mais preciso podia elaborar um pouco mais a ideia de que o rendimento per capita conduz ao aumento do nível de vida. De que maneira? Como se pode medir isso? Etc.
Portanto, os erros na argumentação resultam essencialmente da recusa em confrontar as razões que fundamentam conclusões. Não importa aqui enumerar as formas de recusa. Interessa, talvez, dizer que os erros na argumentação ocorrem quando as razões não fundamentam a conclusão. Em lógica diz-se que as premissas, o nome técnico das razões, são falaciosas.

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