Ideias para Debate

Saturday, April 23, 2005

Desacordo

A Maria de Lurdes Torcato está em desacordo com o Manuel Tivane. E diz-nos aqui porquê:


“Há sinceridade nisso?”

Um contribuinte neste blog - Manuel Tivane – tem uma curiosa forma de se apresentar a debate e foi essa forma que me provocou a vontade irresistivel de lhe responder. Começa por fazer elogios a dois colunistas “da nossa mídia”, um deles o Machado, do qual diz “que não se acomoda perante injustiças e graves contradições, sobretudo por parte dos poderes políticos”. Estou absolutamente de acordo, se Tivane inclui como eu, as críticas ao desleixo e à corrupção, aos privilégios e benefícios ilícitos e imorais, ainda mais tendo em conta a pobreza do estado moçambicano.
Depois faz um elogio mesclado de crítica ao Mia Couto, com uma implícita censura “aquele seu jeito de deixar sempre um mandamento, uma lição”. Não tem mal nenhum nós gostarmos de umas coisas e não gostarmos de outras, na mesma pessoa. Só que exactamente aquilo que Tivana não aprecia no Mia, foi uma “lição” que veio a aplicar na sua própria vida pessoal. Será que está a ser sincero, ou o intróito é apenas um justificativo para a severidade com que discorda do ministro da Saúde, discordância que alarga a outros incluindo a vice-ministra da Agricultura? Afinal, as coisas não estavam tão mal assim antes destes ministros, e o Machado não estava certo nas suas críticas “aos poderes políticos”?

M Tivana não é o único que nos últimos tempos, para grande surpresa minha, aparece a escrever contra estes e outros ministros que se empenham em endireitar aquilo que pensam que pode e deve ser endireitado, nos postos para onde foram nomeados. Digo com surpresa minha, porque estava convencida que neste país se havia um consenso quase unânime, era na condenação da corrupção, da falta de escrúpulos morais, quase todos associados aos cargos do estado. Afinal, a luta contra isso está a cair mal em alguns quadrantes. Tivana procura levar-nos a crer que não está contra as intenções, mas contra os métodos. Mas demora-se muito mais a dizer, por exemplo, que o Dr Ivo tem mau feitio, é carrancudo, não cumprimenta as pessoas, é mal humorado...do que a falar nos “hospitais que andam visivelmente melhor”. Vai mesmo avisando contra “os ressentimentos” que o ministro está a causar, em vez de chamar a atenção dos malavisados que alimentam ressentimentos. Diz que a má-criação do Dr. Ivo já foi vista na TV. Eu não a vi nas várias reportagens das visitas a hospitais em funcionamento, e a “paredes de blocos” levantadas há vários anos para virem a ser a futuros hospitais...mas por lá ficaram esquecidas.
O Dr Ivo Garrido é em primeiro lugar um médico e o autor não baseia certamente as suas críticas em opiniões de doentes que foram vistos ou tratados por ele. Aliás eu já tinha ouvido uma pessoa da minha família censurar o Dr. Ivo, muito antes de ele ser ministro, com uma frase mais ou menos assim: “É um chato com o pessoal. Só os doentes é que gostam dele”. É porque ele tem um alto sentido profissional, em termos científicos e em termos deontológicos, que muitos na profissão de atender doentes o detestam. Porque ele próprio detesta os que abandalham a sua profissão, quer o enfermeiro que recebe dinheiro por baixo da mesa de um pai desesperado com uma filha doente nos braços, quer o director de enfermaria que convive indiferente com a sujidade, sabendo que a falta de assépsia pode matar um doente internado (ou mesmo vários...). A sua farda imaculadamente branca, é só por si uma lição de medicina. E a sua postura de aproximação física ao doente é outra lição, e ele não a exibe por acaso.

Igualmente não consegui aperceber-me da falta de urbanidade e polidez da Vice-Ministra da Agricultura, mas admito que M Tivane sabe porque o diz. Eu vi a sua exaltação emocional, explicando a um repórter o porquê do seu despacho cortando as contas de telemóvel pagas pelo orçamento do estado, e o parque ostensivo de 4x4 no ministério quando fazem tanta falta no campo. Expôs-se tanto como o colunista Machado, ou até mais, nas críticas aos privilégios que chocam a consciência moral. Eu devo confessar que aprecio a INDIGNAÇÃO contra os males deste mundo como a injustiça, a corrupção, a ostentação da riqueza ao lado da miséria, a violência e o abuso contra os mais fracos e indefesos. O episódio do evangelho que mais me impressionou nos anos da minha educação católica, e que ainda hoje aprecio quando já me esqueci de tantos, é o de Jesus expulsando à vergastada os vendilhões do templo. Não sei concretamente o que faziam os “vendilhões” no templo, mas eles são o símbolo de todos os que desrespeitam e abandalham aquilo que para muitos outros é sagrado. Por isso não compreendo nem partilho as opiniões do contribuinte para o Blog, Manuel Tivane.

PS – Antes que se levantem suspeitas por causa dos meus elogios aos dois ministros – nunca fui “puxa-saco de estruturas” - quero esclarecer as minhas relações com eles. A Sra vice-ministra, vi-a pela primeira vez na TV. Quanto ao Dr Ivo, fiz-lhe uma entrevista em 1971, de que ele provavelmente nem se lembra, quando ele era estudante universitário e dirigente associativo, já muito mal visto pelas autoridades e pelas chamadas “cabeças bem pensantes” da época. Quando o voltei a ver, há meia dúzia de anos, passei a ser sua doente, até o Presidente lhe ter dado mais altas funções. Perdi por isso o médico, mas consola-me a ideia de que milhões de pessoas que precisam de hospitais, de médicos e de enfermeiros, podem beneficiar das suas “intenções”, mesmo que os “métodos” inspirem ressentimentos.

Por último, penso que o Blog tem sido rico em ideias mas pobre debate. Os dados já foram lançados, as regras do jogo também, mas o debate, a discussão, aquele pôr e contrapôr de argumentos que resulta em consensos tácitos que, mesmo pequeninos, são passos para conquistar mais uns metros de caminho, esse debate parece-me que ainda não arrancou a sério.

2 Comments:

  • Há sinceridade nisso? É pergunta que M. L. Torcato faz (ou será do editor?) basicamente à minha declarada subscrição dos fins que o ministro da saúde e a vice-ministra da agricultura prosseguem (penso eu), ainda que abomine e rejeite o método que usam.

    A sinceridade é um conceito indeterminado e como tal suscita um preenchimento valorativo no caso concreto. Por isso, dizer que sim, que estou a ser sincero, vale o que vale. Mas, em todo o caso, acredito que sim.

    Para além do prestígio, indiscutivelmente merecido, que granjeia como jornalista, Torcato sempre foi e é senhora de invulgar encanto e elegância (e, pelo menos aqui, peço-lhe que acredite que estou a ser sincero). Desde logo, por isso, me assalta o embaraço de, com as minhas desajeitadas palavras e sofrível argumentação, ter suscitado eventual indignação. Se calhar perdi uma boa oportunidade para ficar calado. Perdoai-me majestade, fugiu-me a boca para a verdade…

    Mas, explico-me. Também me custa ver que num país onde se diz não haver dinheiro para ambulâncias e medicamentos, nem para carteiras para as escola, nem para livros para as bibliotecas (qualquer dia tentarei falar sobre a nossa Biblioteca Nacional, que é mais um conjunto de prateleiras velhas e vazias), vivamos despreocupadamente entre luxuosas viaturas todo terreno, imponentes vivendas à beira mar e faustosos banquetes de núpcias e todos os seus derivativos.

    Somos uma terra onde os jardins e outros espaços públicos, até mesmo os locais históricos como a Praça dos Heróis, são votados ao abandono, ou perto disso. Mas, se formos à quintas dos senhores a quem cumpre cuidar disso, vamos encontrar, para além de uma colecção de viaturas para todas as aplicações, jardins e ornamentos exemplares, muitas vezes tratados por avençadas empresas de 1º Mundo.

    Quase que nem é preciso declarar que estou (e não estamos todos?) contra este estado de coisas. Nada tenho contra a prosperidade e a riqueza, contando que seja legítima e pacífica. Infelizmente, em geral, não é.

    O meu receio é que comece a fazer carreira e a suscitar réplica um modo de agir rude e mesmo grosseirão que já imperou num passado distante criando muito sofrimento e até terror, ainda assim, sem conseguir resultados palpáveis.

    Preferia que as reformas fossem implementadas de forma menos improvisada e atabalhoada.

    O Estado é pessoa de bem. Como tal guia-se por regras preestabelecidas e consistentes. Se é preciso mudar as regras que atribuíram e institucionalizaram um manto de injustificadas regalias, acho que seria mais correcto fixar claramente as regras e aplicá-las uniformemente a todo o Estado, e não de forma localizada, ao sabor da emoção de cada dirigente.

    Os elefantes lutam e o capim é que sofre. Se calhar a fúria da ofensiva dirige-se aos Governantes anteriores, seus camaradas, que criaram e instalaram este estado de coisas. Mas isso é difícil e, então, a corda tem de se partir pelo lado mais fraco.

    O meu apelo é, afinal, o de prosseguir a justiça com rigor e firmeza necessários, mas com correcção e respeito pela dignidade dos outros.

    Não sou funcionário do Estado, nem nunca fui, e, assim, nunca beneficiei das regalias que hoje se estão a retirar. Também não tenho ninguém próximo que preencha o perfil dos afectados, pelo que até estou à vontade e de consciência tranquila nesta matéria.

    Mas, sou pelo respeito pela dignidade humana e averso a humilhações e hipocrisias. Não sei qual seria a minha reacção se tivesse um chefe aos berros comigo, e tenho pena de quem tenha de se humilhar e calar perante posturas que roçam o pidesco e o fasciszante .

    Tantos anos de abandalhamento e de cultura de branqueamento da corrupção (ou será mesmo apenas “pura roubalheira”, como ouvi em tempos M. da Graça liminarmente qualificar), até os mais cépticos, tiveram saudades de Samora.

    Mas, recuperemos o bom do samorismo, que quanto a mim era a preocupação com o povo, com os pequeninos. O filho do camponês e do operário, nesse tempo, podia ter esperança de vir a ser doutor. Tantos os que foram para Cuba, para a RDA, para a Rússia. O resultado não foi talvez tão bom quanto se queria. Mas já foi muito. Muitos filhos de camponeses, filhos do povo, são hoje quadros relevantes graças às oportunidades que o samorismo criou. Dessa preocupação com o povo, com os mais pequenos, sim, tenho saudades. Agora da bofetada que vi um dia dar ao director de uma escola, numa das famosas ofensivas, não. Do medo de falar, da ausência de opinião diferente, da invariável unanimidade das votações, das prisões arbitrárias, enfim, do terror, não, disso não posso ter saudade. E só não os apago da memória, para a eles me opor sempre que essas tristes histórias se queiram repetir.

    Não é hipocrisia andar a gritar com os trabalhadores, médicos e directores dos hospitais (mesmo que haja razões e apeteça isso!), mas sempre acompanhado e guiado pela pessoa que a nível nacional foi há muitos e muitos anos é responsável pelo sector? Não foi incompetência ou, no mínimo, a incapacidade ou falta de habilidade, de quem dirigiu o sector que levou a este estado de coisas. Porque não afastar os responsáveis, os gestores desse estado de coisas? Volta a valer a história dos elefantes e do capim.

    Terminando,

    Para mim o que está a acontecer, no mínimo, roça folclore. Gostaria, ao menos, que resultasse. Nos hospitais, como todos reconhecem, é visível a melhoria. Pena é que tenha de ser com estes métodos que, (é de escola) invariavelmente geram ressentimentos Paciência…

    Torcato que me desculpe a falta de engenho, e a alongada e porventura infeliz tentativa de clarificação. Ainda não tive oportunidade de estudar as lições que andam editadas neste blog. E certamente me faltaria aptidão para as aplicar.

    Em todo o caso, vindo a objurgativa de quem vem, prometo atentar bem ao que me diz e corrigir, com a honestidade possível nestas situações, a minha opinião ou julgamento acerca das questões levantadas.

    Bem haja o debate e a tolerância!

    M. Tivane

    By Blogger M. Tivane, at 1:32 PM  

  • Foice em Seara Alheia: uma pequena memória, em contexto alheio, e crente que comparar tem o seu valor e os imensos limites.
    Há anos discutia eu com um elemento da alta administracão do meu país (Portugal), invectivando a tétrica situacão (na minha opinião) de um dos sectores da administracão pública e a necessidade de rupturas múltiplas. Ele, homem de gabarito e dignidade e vontade de mudancas, argumentou "reforma-se com os funcionários" ao que ripostei "reforma-se contra os funcionários". Francamente não sei quem de nós terá razão, se algum a tem. Mas ele governa o meu país e eu tenho um blog.

    By Blogger jpt, at 12:48 AM  

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