Ideias para Debate

Thursday, November 17, 2005

Passo trocado

A frase do Elisio Macamo: "em suma, em minha opinião, não há corrupção em Moçambique" lembra-me uma história que o meu pai costumava contar.
Dizia ele que um casal assistia a um desfile militar em que o filho deles era um dos soldados. E o marido comentava para a mulher: "Vão todos com o passo trocado menos o nosso António!"
Pois o bom do Elisio Macamo é como o tal soldado António. Quando toda a gente está convencida que o país está roido pela corrupção ele acha que não há corrupção em Moçambique.
Honra lhe seja pela coragem de defender uma ideia tão heterodoxa.

Machado

16 Comments:

  • Mais vale só do que mal acompanhado. Depois do que o nosso país sofreu, aprendi a desconfiar de todo o tipo de doutrina de fé. Antes de ontem marxistas; ontem pais da democracia; hoje combatentes contra a corrupcao; amanha nova ortodoxia...

    By Blogger ESM, at 2:07 PM  

  • Será que o caminho é termos medo das doutrinas de fé? Uma ausência de intervensão para que não sejamos vistos como isto ou aquilo? Continuarmos a ver o país caír para evitarmos rotulos?

    Como fazer algo sem nos importarmos com os tais rótulos? Tudo o que se necessita é de acções. e elas passam de certeza por identificarmos os problemas.

    OA

    By Blogger Olava Brian, at 2:20 AM  

  • Reflecti sobre as várias posições assumidas pelos bloggistas nos posts acalorados até à data. Vou tentar ir por partes, pedindo desde já desculpa pela extensão do post. ESM diz em último post que não há corrupção em Moçambique, apesar de, no meu entender, a ter definido clara e consisamente num dos seus artigos e cito "a corrupção de que tanto falamos -...- é a resposta do nosso sistema político e económico à presença desta oportunidade de apropriação de recursos sem referência ao jogo político normal". Ora o destino desses recursos externos, não era e não é certamente, para apropriação privada ou particular se preferirem, por parte de alguns, mas insumos para o desenvolvimento económico e social do país. Logo, chamar de "roubo" ou "apropriação indevida" torna-se irrelevante desde que aceitemos essa definição ou conceito, deixando assim de discutir as palavras. Ainda segundo ESM isto só é possível pelo "mau funcionamento das instituições" e porque "o nosso sistema político está doente, é ele que deve ser reformado". Mais ainda, acrescenta que o problema principal, "o câncro, o nosso problema, é o auxílio ao desenvolvimento, a dependência, os que nos querem desenvolver". Então, estamos perante o diagnóstico de que o auxílio ao desenvolvimento é a causa da doença do sistema político, que funciona em função da apropriação de recursos (ou corrupção na acepção geral dada por ESM), sendo esta última uma consequência da primeira e o mau funcionamento das instituições, o meio que facilita essa apropriação. Pessoalmente considero que não existe oposição entre classe política nacional e indústria de desenvolvimento, como refere Severino Ngoenha, mas sim uma aliança, uma comunhão de interesses.
    ESM propõe ainda a reflexão sobre as formas de transformar o nosso espaço político mais crítico, mais nacional, resistindo "à tentação de aceitar financiamentos da indústria do desenvolvimento".
    Ainda que concorde com os efeitos perniciosos da indústria do desenvolvimento, considero que existe sempre espaço para que o decisor local defenda os interesses nacionais (ver post de nkhululeko sobre o Mali - retoma do controle público da água e electricidade) ou o exemplo do desenvolvimento cabo-verdeano. A alternativa seria deixar de aceitar os auxílios não se sabendo onde ir buscar os recursos para o desenvolvimento (contar com as próprias forças?).
    Ora, continuo a frisar que o problema são as pessoas. Os Partidos (compostos de pessoas)organizam-se para tomar o poder, sendo a conquista do poder, a questão central. O poder político permitiu e permite a acumulação de capital e o acesso ao poder económico. Aquilo que ESM refere como democracia dentro da Frelimo, no meu entender não é mais do que uma redistribuição de renda num processo de homologia, não se distinguindo a elite política da económica ou militar, extravazando as fronteiras estritas do próprio Partido Frelimo.
    1ª questão - Há alguma hipótese da elite no poder estar disponível para aceitar o convite para o desenvolvimento de uma estratégia de democratização real da sociedade, desistindo de aproveitar a oportunidade de apropriação privada de recursos, sem ser a isso forçada?
    2ª questão - Num cenário optimista, como irá uma classe política nacional, realmente democratizada e com interesses sociais articulados, promover o desenvolvimento económico e social sem os recursos da indústria de desenvolvimento, sabendo nós que mais de 50% do orçamento de Estado provém dessa origem?
    Concluindo, tentei encontrar a tal plataforma de entendimento de que todos falam. Pareceme portanto que todos insistem no mesmo, cabe-nos a nós encontrarmos as formas e os meios para promover a reforma do sistema político e diminuir o impacto de uma das suas consequências que é a corrupção ou apropriação privada e indevida de recursos.
    Concordo com ESM quando diz que devemos insistir num sistema político que devolva a responsabilidade pelas coisas às pessoas, estendendo essa responsabilidade a todas as instituições cuja missão seja defender o bem público, sendo fundamental a intervenção activa de grupos organizados da sociedade civil, na exigência de uma cultura de responsabilidade e prestação de contas. Acabo por verificar que existem afinal, pontos de contacto de ESM com o Machado, quando este refere "que é mais do que tempo que as pessoas honestas deste país se unam à volta de um projecto de cidadania que possa ser alternativa real aos que hoje nos desgovernam". Ambos devolvem a inciativa ou primazia da solução às PESSOAS. Então... quem dá o primeiro passo?

    By Blogger PL, at 4:45 AM  

  • Estamos num país democrático, que se ha de fazer? Na democracia, somos obrigados a ouvir barbaridades que nem essa. Feliz ou infelizmente ainda não se provou haver um regime melhor, porém é pesado demais, é duro, mas é o que vale.

    Abrs!
    Rogério

    By Blogger Rogério, at 9:38 AM  

  • Caros amigos, penso que, por muito que não concordemos com a idéia de alguém, devemos concordar menos ainda com a desqualificação do outro!

    By Blogger Mangue, at 3:21 PM  

  • Caro Muthisse, como podes perceber do próprio texto - em que tiras a citação da proporção enfermeiro X paciente - e dos outros, sempre assumi que a questão (e não o problema) é complicada e complexa. Já o digo logo a seguir a essa citação. O facto de ser “... o caso mais comum em Moçambique. Quem freqüentar o banco de socorros do hospital central, há-de testemunhar a abnegação do pessoal médico e para-médico que lá trabalha. O que acontece é que os recursos disponíveis são insuficientes face à demanda”, está dentro dessa complicação. Procurei apenas fazer cortes didáticos, sabendo, de antemão, que as situações não são estanques. Ou seja, sei, por exemplo, que “é o caso mais comum em” Maputo encontrar um semáforo avariado; quase a totalidade. Mas isso não pode servir de justificativa para não tomar medidas cabíveis a quem atravessa o sinal vermelho no único semáforo que funciona, porque estas seriam medidas “draconianas sem hipótese de resolver o problema concreto”.

    Aliás, quem sabe se uma análise com mais acuidade revelaria que o que aparentemente “é o caso mais comum” não passa de um culto à lentidão como forma (já estabelecida) de coerção, obrigando-nos a uma forma de estar e de ser, não de direitos, mas de privilegio. Sobre esse ponto, é interessante notar que em algumas sociedades em que isso se estabeleceu, com o tempo, os que podiam participar desses privilégios, incluindo as classe de intelectuais, deixaram de pensar em termos de direito (no sentido de que sejam de alguma forma universais ou não serão direitos), mas sim em termos da descriminalização desses actos.

    Caro Macamo, penso que, cada vez mais você traz-me dados que me convencem de que há corrupção em Moçambique, na medida em que, mais de uma vez, você focou a questão da circularidade, que, a meu ver, é uma das características da corrupção: a retroatividade. Ou seja, quando ela se estabelece, entra num ciclo vicioso em que as suas causas atuam sobre os efeitos e vice-versa de forma sucessiva. Por isso que você percebe as ponderações circulares, justamente porque a minha tentativa de abordar a questão é a de seguir os passos da corrupção através dos seus actos, na tentativa de defini-la, e mostrar que ela existe, apenas isso. Agora, isso (esse palavreado, se preferir, e já me adiantando) pode não ser útil para a busca de soluções para a questão - aliás, a minha insistência em não se abordar esta questão de forma generalizada constitui hipótese, apenas – mas, da mesma forma que você alinha uma seqüência lógica de elementos que lhe mostram que ela não existe em Moçambique, a mim, essa forma de abordá-la (definição através dos seus actos), mostram-me que ela existe. Centrar-me nos actos de corrupção - embora “...demasiado prescritivas; [e estarem] a descrever o país que somos, mas sempre numa perspectiva de explicar porque as coisas são como são e como devem ser resolvidas” - permite-me não negar os factos; não retirar as bases objectivas dos mesmos: as pessoas que ficam 5 horas na bicha no hospital porque não têm os “75.000,00Mt” não são abstratas, são concretamente roubadas; as que não tiveram emprego porque não têm influências, são concretamente injustiçadas... portanto, isto existe.

    Penso também que não há como fazer um caminho de desenvolvimento sem pensar no combate à essa corrupção (e nisso, a história sempre se repete: quem está a almoçar sempre acha que os outros podem esperar).

    Creio que quem pensa na “moralização da sociedade”, como você designou os que incluem a dimensão humana na busca de soluções, distinguem, sim, pessoas de instituições. Penso que eles (pelo menos eu) pensam para além das instituições, sob pena de ficarem efectivamente frustrados. Sobre esta questão, lembro-me do convite que recebi para uma palestra alusiva ao mês da consciência negra no Brasil – que, diga-se de passagem, por vezes, tenho a impressão de que a necessidade de que, repetidas vezes, se tem de definir o que é preconceito; definir descriminação, etc., não passa de uma forma cerimonial de impor um “silêncio obsequioso” para que não se discuta objectivamente a má realidade vivida por essa parte do povo, o que os transforma numa designação abstrata. Mas, voltando ao convite, o texto produzido para esse evento centrava-se na questão da “libertação sem liberdade”; ou seja, entre outras, perguntava quantos dos que lutaram pela libertação não acabaram por ficar com a revolução privada, cujo ideal não era a superação do regime, mas o de eles tornarem-se patrões dos outros; eles tornarem-se, portanto, senhores dos outros, com a mesma lógica de exploração, como modelo de promoção social.

    Do mesmo modo, entre nós, pergunto-me se apesar de estarmos institucionalmente independentes, não enfrentamos, ainda, a cultura de exploração. Ou seja, quantos dos que participaram da revolução do “ (...) antes de ontem marxistas [alguns deles mais marxistas que o próprio Marx, como diria José M. Lopes]; ontem país da democracia”, em nome da sua libertação, não passaram a ser os dominadores de hoje? Para quantos, os exemplos quotidianos de realização não são os mesmos dos de antes da independência; isto é, só se realiza como “homem novo” (propalado “antes de ontem”) estando ele no lugar do ex-patrão, imitando-o em quase tudo, de forma igual ou pior: seu estilo e padrão de vida, suas aspirações, etc. (exemplos podem ser vistos na forma de tratamento que recebem muitos empregados domésticos; os muitos que não têm os “75.000Mt” para a gorjeta do enfermeiro ou do servente – o patrão da vez; trabalhadores de algumas lojas; por aí afora)?

    Por outras, quantas pessoas que participaram das revoluções, cuja aderência à forma de ser, enraizados nos séculos de experiência do colonizador, não permitiram que ele desenvolvesse uma consciência de si como pessoa e, como tal, como sujeito ético e moral? Por isso, precisamos de ver para além das instituições, da independência institucional, porque sem ver quem a faz, não há casa, instituição, marxismo ou democracia que resista.

    (isso não quer dizer que as coisas vão mal porque a maioria é “isto” ou “aquilo”. Não tem nada ver; explicações seriam assunto de outra pauta. Também não se quer, com isso, dizer que tudo se resuma à pessoas. Mas sim que elas são parte importante no trinômio, junto com as instituições e o desenvolvimento. Pessoas, não só como indivíduos isolados, mas como sujeitos sociais, em que a sociedade é maior do que eles e, ao mesmo tempo, menor do que eles).

    Por fim, a idéia não era de dizer nada de novo se não o que já havia dito. Apenas esclarecer alguns pontos do ponto de vista adiantado. Por outro lado, gostaria de referir que, pessoalmente, foi bom discutir esse tema. Diferente de alguns blogistas (não só neste e nos de Moçambique, mas em vários lugares) que pensam que debater idéias só é positivo quando se tira uma linha de ação conjunta que se deverá pôr em prática logo a seguir, penso que debater idéias contribui para a práxis, em que mais do que a teoria e, mais do que a prática, é a reflexão dessa teoria e dessa prática. Aparentemente é inútil porque, na surdina, não se fica a saber da acção prática um do outro.

    By Blogger Mangue, at 3:34 PM  

  • Caros colegas,
    Fico muito contente por notar que o debate continua, apesar da ausência de uma plataforma. Aliás, o próprio debate é a plataforma. O resto seria consenso, o que Mangue muito bem critica. PL regressou ao blog (és tu Patrício?) com uma tentativa de reconciliação de posições. Acho esta atitude louvável que confirma a importância da iniciativa do Machado da Graça de abrir este espaço. O nosso País precisa disto.
    O problema da intervenção do PL, contudo, é de procurar essa plataforma à custa da identificação de possíveis inconsistências no meu argumento. Por exemplo, a referência à ideia de que eu próprio já tinha definido o conceito de "corrupção" parece fazer parte disso. Não sei se concordo com isso, nem consigo perceber como é que ele chega à essa conclusão. Na verdade, o facto de dizer que aquilo que uns classificam de corrupção é na realidade outra coisa não implica que eu esteja a proporcionar uma definição da corrupção.
    As minhas intervenções até aqui têm sido no sentido de saber se é correcto dar o nome de corrupção a certas coisas que acontecem no nosso país e que limites deve haver nisso. Comecei por interpelar o Mangue sobre como ele definia este conceito. Tive dificuldades em perceber o que ele escrevia e, por isso, tentava resumir e perguntava se era o que havia entendido. E mostrava que não fazia sentido. Ele ia respondendo, só que com fortes intervenções de fora de pessoas que já estavam fartas de ouvir definições para uma coisa tão clara. Para eles, não para mim. E acusaram-me de querer deitar poeira nos olhos das pessoas.
    A minha insistência na definação parece ter sido sempre interpretada como recusa de reconhecer que há problemas sérios no país. apesar de ter escrito, repetidamente, que a corrupção não é o problema que dizem ser, mas mesmo assim devemos ficar preocupados, a maior preocupação no blog tem sido de querer saber de mim se há ou não há corrupção, o que torna o debate, naturalmente difícil, pois eu teria que declarar a minha própria abordagem inútil. Lembra o "é ou não é?" de Samora Machel. Há é, não é, talvez, complicado, não sei, etc. É evidente que a pergunta que o Machado da Graça me colocou, corroborado pelo Mangue, mata a minha abordagem.
    E não só isso. Ela mata a reflexão sobre este assunto. À força de reconhecer a existência da corrupção só nos resta "moralizar" a sociedade ou, pior ainda, introduzir medidas inúteis como foi a criação da Unidade Anti-Corrupção. Esse reconhecimento da corrupção cria um mau ambiente no país, onde se infere que tudo seja corrupção. Li recentemente os jornais "Savana" e "O País" sobre os "PCA's". Os artigos em questão vivem da inferência da corrupção, mas nenhum deles mostra que, por exemplo, no caso da EDM tenha havido aquilo que eles chamam de corrupção. A empresa tem graves problemas, o PCA cessante teve uma gestão bastante contestada, mas nenhuma das coisas relatadas em conexão com o seu desempenho sugere a existência de corrupção, a não ser a inferência. Li um artigo no jornal Zambeze sobre problemas na emissão de passaportes e lá também é o mesmo problema. A grande sugestão é de que funcionários da migração são corruptos, mas o verdadeiro problema que é apontado nesse artigo é de burla por parte dos chamados "mukheristas". Este fim de semana estive na Suécia e aproveitei para conversar com algumas pessoas sobre o problema do MINED. Pelo que pude apurar nessas conversas informais, a acusação de corrupção parece-me demasiado exagerada. A incapacidade de justificar contas não é sinónimo de corrupção; o facto de o Ministro dar bolsas a familiares não é necessriamente corrupção se, por via disso, beneficiaram pessoas capazes, se não ficaram prejudicados melhores candidatos, etc. Chamar a tudo corrupção é uma maneira muito perniciosa de pensar os problemas do país. É não querer pensar. Sobre este último assunto (ministério da educação) espero ainda fazer um estudo académico mais apurado.
    É contra os perigos deste procedimento metodológico que tenho estado a tentar alertar os meus colegas. Já que ninguém está disposto a reflectir para além da constatação simplista da existência ou não da corrupção, não tenho outro remédio senão recusar a sua existência. Não quero, obviamente, convencer ninguém sobre isto. Quero apenas abalar a certeza que a maioria tem de que está tudo claro, pois em minha opinião nada está claro.
    Se corrupção é o que até aqui foi definido neste blog, então não vejo porque isso deve ganhar prioridade no nosso país. O nosso país não está mal por causa da corrupção; há o que chamam de corrupção porque o nosso país está mal. É o que está mal que deve ser atacado, não os efeitos.
    Sobre pessoas e instituições prefiro mesmo não comentar. Não consigo perceber a utilidade da insistência nesse ponto. É claro que as instituições são feitas de e por pessoas. Mas é também evidente que as instituições podem ganhar autonomia pela sua força normativa e jurídica. Não vejo o problema.

    By Blogger ESM, at 8:12 AM  

  • Caro ESM, começando pelo fim, estou de acordo que as instituições podem ganhar autonomia pela sua força normativa e jurídica e também pela sua cultura organizacional, onde cada novo colaborador se rege pela regras e procedimentos explícitos e mesmo implícitos, até por força do espírito de corpo e de grupo que o força a agir dessa forma, estando a lembrar-me de certas instituições de ensino afamadas e muitas das grandes empresas multinacionais e não só, mas penso que não é esse ainda o caso de Moçambique, mas ao mesmo tempo também penso que é algo já ultrapassado nesta fase da discussão. Estou de acordo que a corrupção ou qualquer outro termo que se quiser dar a esse problema, já bastante descrito pelos outros colegas, é mais um efeito do que uma causa, ainda que, e perdoe-me a deformação profissional, em termos de metodologia da árvore de problemas, ela também seja causa de outros problemas, "alargando assim base da copa da árvore". O nosso país está mal e isso permite a existência da corrupção, também é algo que penso que nenhum dos colegas poderá contestar, residindo então a questão central em identificar/diagnosticar qual a origem do mal, ou o mal maior. A base de entendimento que propus foi que esse mal reside na actuação da elite do poder e no seu processo de reprodução, através da ocupação de todos os campos, político, económico e militar. Há uma história brasileira (o sonho dos ratos)que noutra altura transcreverei ou então enviarei para o Machado para que ele publique se assim o entender, mas cuja "moral" o Mangue bem sintetizou no seu post:

    "Do mesmo modo, entre nós, pergunto-me se apesar de estarmos institucionalmente independentes, não enfrentamos, ainda, a cultura de exploração. Ou seja, quantos dos que participaram da revolução do “ (...) antes de ontem marxistas ... ontem país da democracia”, em nome da sua libertação, não passaram a ser os dominadores de hoje? Para quantos, os exemplos quotidianos de realização não são os mesmos dos de antes da independência; isto é, só se realiza como “homem novo” (propalado “antes de ontem”) estando ele no lugar do ex-patrão, imitando-o em quase tudo, de forma igual ou pior: seu estilo e padrão de vida, suas aspirações, etc."

    Então o que agora proponho é uma análise da actuação dessa elite e se quiserem, antes disso, a sua própria composição que, no meu entender, já ultrapassa a mera questão partidária.
    Terminando e apenas para esclarecer, caro ESM, não procurei com as citações dos seus artigos encontrar inconsistências de discurso (ainda que em alguns casos até possa não concordar com o que diz), mas pelo contrário referir que eles me tinham levado a percorrer caminhos de análise que, em alguns aspectos, até eram concordantes com análises de outrém e favoreciam a elevação do debate para outras etapas. Já agora PL é abreviatura de Pinto Lobo, que me esqueci de assinar no último post. Abraços

    By Blogger PL, at 10:38 AM  

  • Caro Pinto Lobo,
    Acho que agora já estamos a andar bem. Pelo menos comeco a nao me sentir sozinho. É claro que nao concordo nem com a sua ideia de que sempre houve consenso sobre causa e efeito, nem com a sugestao de que ninguém está contra a ideia de que é o país que está mal. Toda a discussao até aqui foi sobre isso!
    A questao das instituicoes nao me parece ultrapassada, mas acho que o Pinto Lobo teria que me explicar o que quer dizer com isso para eu saber se estou de acordo ou nao. Coloquei no blog um artigo em que procurava identificar a origem do mal. É um pouco próximo do que diz com a única diferenca de que nao responsabilizo apenas a elite política. Isso simplifica demasiado as coisas. Para mim o problema reside na nossa condicao de dependência do auxílio externo que transforma os decisores políticos, mas também cada um de nós em artefactos da indústria do desenvolvimento. A questao das rendas vem daí. Nao é só um problema da elite política, é um problema nacional que reforcou o que em tempos, também neste blog, chamei de lógica situacional. O problema está aí, em minha opiniao. A retórica anti-corrupcao é mais um artefacto dessa indústria.
    A indústria do desenvolvimento é o meu fantasma, é verdade, mas é o fantasma que apoquenta também o nosso país. Em minha opiniao. Viva o debate de ideias!

    By Blogger ESM, at 11:48 AM  

  • Se calhar ou a perceber mal. Mas, para dizer que algo não existe também deve ser preciso saber do que se fala, isto é, o que se nega ou rejeita. Assim, parece-me, ESM sem se mostrar satisfeito com as respostas que obteve à pergunta «o que é a corrupção?», e sem ter enunciado o que em seu entender ela é, acaba por dizer que a mesma (corrupção) não existe. Isto faz sentido ou é só um jogo de palavras? Um uso desobjectivado do poder da argumentação? É que assim, parece acabar por dar razão aos que afirmam que não é preciso definir corrupção, porque toda a gente sabe muito bem o que isso é: “é claro como a água”. Pois, se ESM, sem ter compreendido o que a corrupção é (ele é que o declarou), lhe nega a existência, talvez possa ser porque, no fundo, sabe bem que toda a gente sabe que ele sabe que sabe. Trocadilho, hein? Mas, partilho a ideia de que a clareza do conceito não haverá que ser aceite assim, sem mais, e de é o questionamento sistemático e metódico que adentra o conhecimento para além do senso comum. E, (respondendo ao viva o debate!), VIVA! mt

    By Blogger m. tivane, at 11:12 PM  

  • Olá,
    Acho que está a perceber mal: Se alguém nega a existência de Deus é porque sabe que ele existe? Se fosse assim a negação não seria possível. Logicamente. Ele nega, simplesmente, que a certos fenómenos seja atribuído esse rótulo. Essa tem sido a minha posição aqui. Considero o debate demasiado útil para perder o meu tempo a confundir as pessoas só pelo prazer de as confundir. Abalar as suas certezas, isso sim, pois considero isso crucial para uma melhor compreensão dos problemas do nosso país.

    By Blogger ESM, at 11:39 PM  

  • Se calhar estou a perceber mal. Mas, para dizer que algo não existe também deve ser preciso saber do que se fala, isto é, o que se nega ou rejeita. Assim, parece-me, ESM sem se mostrar satisfeito com as respostas que obteve à pergunta «o que é a corrupção?», e sem ter enunciado o que em seu entender ela é, acaba por dizer que a mesma (corrupção) não existe. Isto faz sentido ou é só um jogo de palavras? Um uso desobjectivado do poder da argumentação? É que assim, parece acabar por dar razão aos que afirmam que não é preciso definir corrupção, porque toda a gente sabe muito bem o que isso é: “é claro como a água”. Pois, se ESM, sem ter compreendido o que a corrupção é (ele é que o declarou), lhe nega a existência, talvez possa ser porque, no fundo, sabe bem que toda a gente sabe que ele sabe que sabe. Trocadilho, hein? Mas, partilho a ideia de que a clareza do conceito não haverá que ser aceite assim, sem mais, e de é o questionamento sistemático e metódico que adentra o conhecimento para além do senso comum. E, (respondendo ao viva o debate!), VIVA! mt

    By Blogger m. tivane, at 12:29 AM  

  • ????? Veja o meu "post" anterior, por favor. Ou não está satisfeito?

    By Blogger ESM, at 1:35 AM  

  • Penso que, enquanto o Elisio Macamo não nos disser o que é, para ele, corrupçâo, a fim de podermos analisar se isso existe, ou não, em Moçambique, não há espaço para o diálogo.

    Machado

    By Blogger Ideias para Debate, at 4:03 AM  

  • Nesse caso também dou por encerrado o diálogo. Aprendi muito. Vou procurar as respostas às minhas perguntas na lei anti-corrupção, se existir. Se não existir vou achar isso muito estranho. Obrigado a todos! Um abraço.

    By Blogger ESM, at 5:16 AM  

  • Meu caro Elísio

    Assumo-me como jovem marxista (apenas 29 anos) de inspiração gramsciana. É com bas em gramsci que dialogarei com vc.

    Será que o nihilismo, ceticismo e o agnosticismo que defende ajuda a nos localizarmos em Moçambique?

    Primeiro, perguntaria de qual marxismo vc fala e que vigorou em Moçambique? Teria lido, por acaso, a entrevista que Óscar Monteiro concedeu aos estudantes moçambicanos em São Paulo em 1990 e que aparece no livro-tese de Mazula? Nela verás que o que houve em Moçambique foi um pseudo-marxismo. No meu trabalho de mestrado recentemente terminado, algumas importantes figuras moçambicanas por mim entrevistadas confessaram-me que o marxismo de Moçambique estava na cabeça de alguns...

    O que aconteceu em Moçambique, em nome do marxismo (usado para afirmação do poder de uma elite) foi uma revolução passiva. Mesmo o atual discurso de combate à pobreza, no meu entender, faz parte da revolução passiva. O conceito é muito amplo, mas para o caso moçambicano resumiria em uma série de atos e palavreados visando criar um período de expectativas nas maiorias sociais (Revolução, depois PRE, agora combate à pobreza absoluta), enquanto os dirigentes vão se mantendo no poder.

    Se compreendermos esta história em movimento de Moçambique, talvez deixaremos de ser meros expectadores.

    Ciprix

    By Blogger Ciprix, at 8:33 PM  

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