Ideias para Debate

Tuesday, November 15, 2005

De volta à corrupção

O Elisio Macamo respondeu-me, nos comentários ao post anterior.
Eu, como continuo a achar que textos mais desenvolvidos devem ser publicados como posts, respondo-lhe aqui.
Portanto, leitor, vá primeiro aos comentários anteriores, até porque há lá mais opiniões interessantes e curtas.

Passando agora ao texto do Macamo.

É claro que eu estava a ferver no meu canto, ao longo do debate, porque, para mim, a questão da corrupção traduz-se, na prática, no roubo do meu dinheiro. Do dinheiro que me custou a ganhar e entreguei ao Estado, sob a forma de impostos.
E entreguei-o para ter boas estradas, boas escolas, bons hospitais. Não foi para ver esse dinheiro ser desviado para bolsos privados e utilizado na vida luxuosa de um bando de ladrões.
Não quero que o meu dinheiro vá para tapar os buracos do Banco Austral, do BCP e da Segurança Social, para não falar dos desvios que os jornais anunciam diariamente.

O Elisio Macamo deturpa o que eu digo através da generalização abusiva: O Machado acha que corrupção é tudo quanto não está bem.
É claro que não é isso que eu digo e o Macamo sabe-o perfeitamente.

Igualmente deturpa o meu pensamento a respeito da utilização do jargão académico. Pois se abri este blog onde o tal jargão é o que mais aparece!
O meu problema é quando vejo esse jargão a ser utilizado não para nos ajudar a pensar melhor mas, pelo contrário, para tornar impenetrável aquilo que, na verdade, é cristalino.

Diz ele que a prioridade não deve ser o combate à corrupção mas sim a reforma do sistema político para que haja cultura de responsabilidade e os procedimentos se tornem transparentes.
Mas como é isso possivel estando a totalidade do poder político nas mãos de um partido que não mostra, na prática, nenhuma vontade política nesse sentido, pelo contrário continuando a deitar a capa protectora do silêncio cumplice sobre os seus membros criminosos?

Diz o Macamo que, nos Estados Unidos, abandonaram a estratégia de combate à corrupção. Então porque será que, não há muitos meses, vi fotos de PCAs de algumas das mais importantes empresas americanas, algemados, a entrarem na cadeia? E nós, já tivemos algum caso?

É muito possivel que o primo de quem decide seja o melhor candidato. Mas tem que o provar, de forma transparente e não ser nomeado, às escondidas, por um despacho do primo poderoso, como acontece agora, na maior parte dos casos.

Não acho, claramente, que a corrupção seja um aspecto menor a ser atirado para um plano subalterno das nossas preocupações.
Pelo contrário penso que a corrupção é uma entidade parasita que está a sugar a riqueza do país em beneficio de uma camada.

E acho que isso tem que acabar. E só acaba quando os primeiros corruptos forem condenados a pesadas penas de cadeia.

Machado

4 Comments:

  • É difícil não concordar com o Machado principalmente porque, no seu texto vigoroso, investe contra o roubo, a desonestidade, contra pessoas que enriquecem com o nosso dinheiro e... contra o poder político actual que, de acordo com ele, acoberta os ladrões promovendo a impunidade. Alguém pode discordar disto?

    Penso no entanto que o problema não está exactamente em ser contra ou a favor do roubo. O problema parece estar nas formas de abordar o fenómeno. Alguns acham que a corrupção, por ser um subproduto das políticas neoliberais, não pode ser combatida sem questionar essas políticas. Ou seja, ela não acabaria, nem com toda a vontade política, enquanto encararmos o "desenvolvimento" como o fazemos neste momento.

    Outros acham que o melhor da capacidade intelectual da nação deve ser direccionada na caça, prisão e sancionamento dos corruptos. Ou seja, que a corrupção poderia ser vencida se houvesse vontade política para isso.

    Do que percebi deste debate, não há ninguém que não se indigne com os actos que o Machado descreveu com o vigor a que nos habituou, mesmo aqueles que acham que o problema da corrupção em Moçambique está a ser artificialmente inflaccionado.

    Um abraço a todos

    Gabriel Muthisse

    By Blogger GM, at 8:09 AM  

  • Caro Machado, está claro que não te percebo, sobretudo, enquanto insistires na ideia de que tudo está claro, que qualquer opinião ao que tu e outros vêm com clareza é uma tentativa de lançar poeira aos olhos. Esta impaciência bem como a atitude categórica de que já não há mais nada para se discutir - só para continuar a lamentar sobre a corrupção - é que torna este tema da corrupção extremamente problemático aos meus olhos.
    Tudo quanto nos resta são os apelos morais, a indignação e, pior do que isso, uma espécie de fatalismo: seja o que for que nós fizermos, os "ladrões" vão contrariar. Este fatalismo resulta da recusa do debate patente na impaciência com o jargão académico. Aquilo que muito desajeitadamente se define como corrupção neste blog é o resultado de problemas estruturais que deviam merecer a nossa atenção prioritária. Só atacando esses problemas é que teremos uma pequena chance de, a longo prazo, começar a acabar com a corrupção de que tanto falam. Se um PCA "rouba" não é suficiente pedir o seu afastamento em artigo após artigo. Mais necessário do que isso é concentrar a nossa atenção no que deve ser feito ao nível do funcionamento das instituições (tribunal administrativo, polícia, etc.) para tornar a vida difícil aos que se sintam tentados a fazer a mesma coisa. O problema está nas instituições, nas condições estruturais, na natureza dos desafios que se colocam ao país (desenvolvimento através do auxílio). As pessoas são aqui o problema menor, a não ser que se trate de pessoas mais preocupadas em chamar nomes a outras (ladrões), mostrar indignação e recusar ouvir outros pontos de vista sobre um problema que consideram claramente definido.
    Se não acreditas na probabilidade de reforma do sistema, o que te leva a supor que vais conseguir mudar os "corruptos"? Mas lá estou eu de novo a deitar poeira nos olhos... A reforma do sistema político é o único espaço de actuação que nos resta!

    By Blogger ESM, at 9:35 AM  

  • Brilhantemente como sempre, ESM coloca questões fundamentais como a reforma das instituições e o adequado funcionamento daquelas a quem compete a fiscalização e a punição ou dissuação dos infractores ou prevaricadores. O pomo de discórdia resulta que não penso que as pessoas sejam um problema menor. As instituições são compostas de pessoas, não existem sem pessoas e elas, no meu entender, são O Problema, sejam elas as elites que governam, ou aqueles a quem lhes foi confiada a tarefa de dar corpo à missão das várias instituições ou mesmo nós outros que apenas vociferamos contra a corrupção ou então entramos no "esquema". Evidentemente que acredito na possibilidade de mudança/reforma do sistema, desde que se consiga definir como e por onde começar. Caro ESM, lanço-lhe o desafio de elaborar mais um dos seus excelentes artigos, agora sobre a estratégia de reforma das instituições moçambicanas e da criação de um processo de mudança de mentalidades, iniciando uma nova etapa do debate. Um garnde abraço

    By Blogger Pinto Lobo, at 11:10 AM  

  • Vou tentar apresentar o meu caso sem jargão académico. Você chega a um banco de socorros de uma unidade hospitalar qualquer. É informado que algumas pessoas que lá se encontram chegaram há mais de 5 horas. E você, portanto, não consegue prever o tempo em que será atendido. Ao espreitar o pessoal médico, apercebe-se que todos se encontram razoavelmente ocupados a atender doentes. Não é lá visível qualquer espírito de deixa andar.

    No entanto, você tem um bebé de tenra idade com febre, apática e sem comer há 24 horas. Está portanto visivelmente doente. E não consegue prever quando será atendido. Apercebe-se contudo que, se despender 75.000 meticais com o arrumador da bicha, seu bebé poderá ser atendido, digamos, em 20 minutos. Passando à frente de outros que já lá estão há horas. A sua preocupação de pai aflito fá-lo optar por esta saída. E paga os 75.000 meticais.

    O exemplo que aqui desenvolvi, bastante real para as condições concretas de Moçambique pode ser encontrado em muitos outros sectores, que se encontram pressionados por uma demanda explosiva de serviços que não podem satisfazer por ausência de recursos (no registo civil, na educação, na procura de terrenos para construir, etc.). Para obter algum grau de previsibilidade o cidadão vê-se forçado a pagar gorjetas.

    Como se combate este pagamento de gorjeta (que é corrupção)? Com um decreto do Presidente? Com a prisão do corrupto e do corruptor (parafraseando o amigo Mangue)? Com a mudança de mentalidades? Com a moralização da sociedade?

    Os desafios que o nosso país enfrenta ultrapassam as questões morais. E isso é o que alguns de nós têm estado a tentar dizer.

    Abraço

    Gabriel Muthisse

    By Blogger GM, at 1:04 AM  

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