Ideias para Debate

Friday, September 30, 2005

Um brasileiro

Já que os moçambicanos andam tão ausentes do blog, hoje publico a contribuição de um brasileiro, que entra pela nossa casa dentro:

Caríssimo Gabriel Muthisse,
Meu nome é Cássio Rocha, sou um brasileiro "intrometido" nos assuntos moçambicanos.
Permitam-me emitir um pequeno e humilde comentário a respeito do texto do querido Manuel Mangue.
Longe de conhecer a realidade de Moçambique, adianto que minha avaliação pode apresentar a deficiência do "contexto", de conhecer quão "irregular é o piso" que o Manuel brilhantemente faz uma analogia.
O prezado Manuel presta um grande serviço em sua análise. Toca um ponto fundamental: As condições adeqüadas para uma vida humana digna. Utilizo o termo adeqüado ao invés do "mínimo" pois, ao se tratar desta breve existência humana (a qual Santa Terezinha brilhantemente chamava de "una mala noche en una mala posada"...), o mínimo é muito pouco.
De fato, competir sem ter condições para tal, é uma tarefa hercúlea. É, em uma ilustração, ter que desviar o rio Alfeu para limpar os Currais Augianos do Rei Áugias de Elida (um dos seis trabalhos do Peloponeso ao qual Hércules se submeteu, segundo a mitologia). Uma tarefa, para um humano, impossível.
Mas a análise do caro Manuel apresenta uma contradição evidente. Confunde competitividade com competição desleal, brutal. Ao contrário do que sugere, o aumento da competitividade pressupõe precisamente o aumento da qualidade dos serviços, da qualificação, das oportunidades, da qualidade de vida. A igualdade, ao contrário de ser uma "quimera que prejudica os mais competentes", é o pressuposto que, no mínimo, permite a verdadeira competição - a leal, a justa. Mas, há um alerta sobre uma abordagem perigosa: A igualdade não se trata de uniformidade, mas entende o ser humano como diversidade, pluralidade, onde fecundam as diferentes vocações e as diferentes habilidades.
Com efeito, é do Estado esta tarefa de proporcionar a base para o desenvolvimento dessas habilidades. Um dos pontos é fornecer o "calçado" adequado para a corrida, estabelecer de maneira clara e transparente as regras da corrida e ter um bom árbitro para fiscalização, de modo que não haja injustiças. Ademais, a boa, a justa competição auxilia na própria "qualificação". São vários os casos (inclusive brasileiros) de abertura de mercado e conseqüente inserção onde o resultado foi a modernização, a busca e partilha do conhecimento, elevação dos investimentos e, por conseqüência, aumento do número de empregos, dividendos "elevados" para o governo através da arrecadação tributária (para teóricos investimentos em saúde, educação e segurança), e o fortalecimento da indústria nacional como um todo (afinal, uma empresa possui fornecedores, parceiros, empresas constituintes de sua "cadeia de valor"), ao contrário do que se pressupunha (enfraquecimento dos competidores nacionais, desemprego, etc).
É claro, também, que o assunto não é passível de tratamento a partir de um viés estritamente econômico. Não. Mas, planejando corretamente - dando as condições adequadas de competir ao invés de simplesmente de furtar a competir, o resultado pode surpreender. A "fórmula de distribuição", brilhantemente apontada pelo caro Manuel, trata-se mais de uma questão antropocêntrica que verdadeiramente sistêmica. Afinal, sucumbiram Socialismo, Comunismo e afins, apesar de seu ideal "igualitário". A proposição ideal não passa - estritamente - por internacionalização, mas por garantir qualificação e oportunidades para um povo, até então excluído mesmo da possibilidade de competir.



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