Ideias para Debate

Monday, March 27, 2006

Música e Identidade

Acedendo ao meu pedido, o Daniel Doku re-enviou-me o seu texto. Aqui vai, antes que haja novo azar:

Música e Identidade: Mais Reflexões

Na sua contribuição para o debate sobre a música produzida em Moçambique (http://ideiasdebate.blogspot.com, 30 de Janeiro de 2006), Patrício Langa reflecte sobre a música e identidade moçambicanas. É uma provocação interessante e até desafia os músicos moçambicanos a tocarem “ritmos e sons locais produzindo música global”. Ele argumenta, e eu concordo, que a presunção de que há um conflito de gerações entre músicos moçambicanos talvez seja de pouca ajuda ao debate. Isto não quer dizer que não haja rivalidade entre eles. Adverte também, e com razão, dos perigos de uma excessiva dependência da tradição relativamente à modernidade. No que se segue, gostaria de explorar alguns dos outros argumentos apresentados por Patrício. Faço-o tendo em vista o objectivo de abrir ainda mais o debate.

Segundo Patrício, “o cerne da questão reside na pretensão de se definir o que é moçambicano na ‘música moçambicana’”. Contudo, e infelizmente, ele não lida directamente com esta questão. Antes, rejeita a descrição de géneros particulares da música moçambicana como “música de raiz”, pois, em sua opinião, tal atribuição, por um lado, apela ao essencialismo em música e, por outro, exclui e menospreza o resto da música moçambicana. “Uma defesa essencialista da tradição musical poderá degenerar em fundamentalismo musical, onde só é sagrado – e, portanto música – aquilo que se considerar de “raiz”, e profano tudo o que não couber nessa categoria”. Quer-me parecer que talvez seja imprudente esta caracterização da resposta de outros.

Diria ainda que, embora o nosso enfoque neste debate seja o valor cultural da música, há que ter em mente outros valores que ela comporta.

Subscrevo o quadro analítico no qual ele situa o debate: conceptualizando-se a identidade, incluindo a moçambicanidade, como um projecto ou “um fenómeno processual, mutável, e, por conseguinte, não fixo”. Contudo, parece-me que Patrício é demasiado crítico de outras opiniões legítimas, como se estas fossem contrárias ao seu quadro analítico escolhido. O mal-entendido, pelo menos em parte, está enraizado numa ligeira confusão semântica relativamente às palavras “essência” e “raiz”.

· Essência

A palavra “essência” tem, pelo menos, dois significados (os outros são irrelevantes à nossa análise). O primeiro é o inerente e imutável carácter de uma coisa (ou classe de coisas) percebido como distinto dos seus atributos ou da sua existência. Reconhece-se esta ideia vulgarmente como essencialista. Parece-me que Patrício depende demasiado deste significado da palavra “essência” na sua avaliação dos comentários de outros.

Explico-me. O segundo significado relevante é o conjunto das qualidades pelas quais um ser ou uma coisa se define, ou seja, pelas quais se caracteriza a sua identidade. Quer dizer, um grupo indispensável de características de um ser ou de uma coisa.

Note-se que, relativamente ao segundo sentido de “essência”, alterar-se-ão as qualidades relevantes consoante as mutações de identidade particular (dado que a identidade não é fixa). Fazemos uma breve referência ao facto de que não há nenhuma razão pela qual não se possa pesquisar tais conjuntos de qualidades. E tal trabalho não implica necessariamente qualquer compromisso com posições essencialistas como Patrício sugere.

Tomemos, por exemplo, um género musical como a Marrabenta. Segundo Patrício, parafraseando o sociólogo francês Pierre Bourdieu, “Falantes de uma língua subscrevem-se num sistema geral; enquanto que o uso individual varia, os indivíduos estão conscientes das fronteiras do sistema que prescreve limites aceitáveis sobre as variações. A produção e a recepção do trabalho criativo de arte musical obedecem à mesma lógica”. Relativamente ao nosso exemplo, parece-me razoável supor que o “sistema geral” inclui a configuração de sons e ritmos, em grande parte perceptual, através da qual conseguimos reconhecer a música particular como Marrabenta. Isto significa que se pode pesquisar tais configurações dos sons e ritmos no segundo significado da palavra “essência”, sem nenhuma pretensa de reivindicação de essência musical no primeiro sentido da palavra.

Portanto, a censura de Patrício: “Buscam-se justificações geográficas e culturalmente essencialistas dos ritmos e sons da música como se estes não estivessem em permanente trânsito” não está adequadamente fundamentada.

· Raiz

Patrício faz perguntas (algumas delas retóricas): “O que é raiz da música? Esta analogia entre a música e a planta, entre um produto social e outro natural é plausível? A raiz da planta com a qual ela se assenta e fixa na terra donde suga os sais minerais para a sua própria existência é fixa, imutável, inerte, pois, caso contrário morreria. A raiz da música obedece ao mesmo princípio? O ‘desenraizamento’ da música faria com que ela morresse do mesmo jeito que a planta? (...) Que característica ou elemento analógico é considerado relevante na comparação entre a música e a planta – a fixação na terra? Só assim entendo o termo “música de raiz”. Música assente na terra, portanto, fixa, imóvel, inerte e imutável. (...) Então, porquê a comparação?”

Esta é uma passagem muito peculiar, penso eu. Pode-se aceitar que a raiz de uma planta é fixa (no restrito sentido de que a posição espacial de uma planta, incluindo as suas raízes é fixa). Todavia, ainda é discutível se a mesma é inerte, e, seguramente, não é imutável, pois, a raiz de uma planta cresce, desenvolve-se, até medra e eventualmente morre. Além disso, a palavra “raiz”, no seu sentido figurativo, simplesmente significa a origem, ou a fonte, de alguma coisa tal como uma prática, uma ideia, uma música, etc. Portanto, as objecções levantadas por Patrício ao emprego metafórico da palavra “raiz” são infundadas.

Se aceitarmos esta figura de retórica, verificaremos que todos os tipos de música têm as suas raízes próprias. Assim, colocar questões como “o que é que faz a música de Mc Roger uma música ‘desenraizada’?”, como Patrício faz, é não só emotivo e inútil, mas também ininteligível. Verificaremos, ainda, que se podem pesquisar as raízes de qualquer música. Só que as raízes de géneros particulares de música estão inextricavelmente ligadas às identidades nacionais, como veremos.

· Identidade da música e identidade em música

Patrício pergunta ainda “o que faz uma produção musical – a criação harmónica de ritmos e sons e voz – merecer uma identidade nacional? Em outras palavras, em que reside a moçambicanidade da música?”. É claro que ele considera estas questões como se fossem uma mesma questão. Na verdade, ele prossegue fazendo pouco caso da suposta única questão, e fá-lo por rejeitar a comparação entre a raiz da planta e a música – a mesma reacção que acima acabámos de pôr de parte como insustentável. Posto isto, que outras respostas se poderão dar às questões levantadas por Patrício?

Como já insinuei, creio que as ditas questões são separadas e distintas. Em primeiro lugar, trata-se da identidade da música. Para uma música particular, esta inclui o tipo de música, quer dizer, o seu género, o grupo social que a produz, etc. Assim, pode-se falar da identidade nacional de uma música específica, por exemplo Marrabenta, como música moçambicana. Num sentido geral, quase trivial e não muito interessante, música moçambicana seria a soma de todas as músicas produzidas pelos moçambicanos. Mas, num sentido mais relevante para a nossa análise, identificar uma música como música moçambicana significa uma atribuição particular àquela música. É também um efeito significativo e, para merecer esta identificação, aventaria que a música, de entre outras coisas, há-de ter uma forma musical identificável; ser razoavelmente distinta das outras formas musicais, quer nacionais quer estrangeiras (embora possa ter influências musicais destas); ter sido desenvolvida e aperfeiçoada pelos moçambicanos; e ser aceite pelo seu público, ou seja, os próprios moçambicanos e os estrangeiros, como tal. Assim, o Hip-Hop é música americana, o “Calypso” é música de Trinidade e Tobago e a Marrabenta é música moçambicana, etc.

Note-se que esta identidade nacional de uma música específica dá valor cultural àquela música. Ademais, uma vez legitimamente atribuída, não se pode retirar a identidade nacional dessa música particular. O pior é que, se tal música não é preservada, morre. É por esta razão que alguns defendem a preservação de tal música como parte da tradição do povo que a produz. Na verdade, mesmo tal preservação não implica necessariamente nem gosto pela tradição nem resistência à modernidade, nem leva à estagnação em nome da tradição como Patrício receia. Pelo contrário, esta mesma preservação poderia estimular mais criatividade e desenvolvimento da música particular.

Mas será que tudo isto significa uma reivindicação de que há uma identidade nacional em música? Isto leva-nos à segunda questão. Duvido que haja uma identidade nacional em música. Não tenho nenhum argumento forte para esta posição, mas, no meu entender, embora a música seja uma prática cultural que nos ajuda a definir, ou a dar corpo à identidade de um povo, não se pode situar a identidade de um povo na música, pois, fazer isto representa uma tentativa de congelar um aspecto de identidade na música o que não é possível dado que a identidade não é fixa. Assim, quem pesquisa determinada música que já tenha uma identidade nacional pode legitimamente reivindicar dedicar-se a um aspecto de identidade nacional de uma forma que outros músicos, pesquisando, desenvolvendo e tocando música que ainda não merece ou não tem identidade nacional, não podem. Mas isto não significa que haja uma identidade nacional na música a que tal identidade nacional foi atribuída.

Neste contexto, é verdade, como diz Muna comentando o texto de Patrício, que qualquer “música (...) em si nunca será algo profundamente de raiz [moçambicana] porque a semente pode até não ser nossa”. Por mim, diria que o ponto relevante é a importância da contribuição dos moçambicanos para a música particular que, isso sim, leva à atribuição de identidade nacional a tal música.

· Moçambicanização versus Moçambicanidade

No seu artigo, Patrício conceptualiza “a moçambicanidade como um fenómeno processual, mutável, e, por conseguinte, não fixo”. Também no mesmo parágrafo, e parafraseando o filósofo moçambicano Severino Ngoenha relativamente à busca da independência de Moçambique, ele considera-a como um projecto “que se iniciou e que se prolonga até hoje (...) com a introdução, sempre, de novos elementos, daí a preferência de alguns pela expressão moçambicanização ao invés de moçambicanidade, que sugere algo fixo e imutável”. Embora Patrício esteja a indicar a preferência de alguns, apresentá-la só, sem nenhum comentário, introduz uma contradição interna no seu texto, pois a moçambicanidade não pode ser mutável, não fixa, e simultaneamente sugerir algo fixo, imutável. Além disso, a comparação implícita da moçambicanização com a moçambicanidade não explica plenamente a ligação entre elas. Na verdade, são diferentes lados da mesma moeda. No seu artigo “Modernidade, identidade e a cultura de fronteira”, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos apresenta este ponto, bela e sucintamente do seguinte modo: “Sabemos hoje que as identidades culturais não são rígidas nem, muito menos, imutáveis. São resultados sempre transitórios e fugazes de processos de identificação. Mesmo as identidades aparentemente mais sólidas, como a de mulher, homem, país africano, país latino-americano ou país europeu, escondem negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidades em constante processo de transformação, responsáveis em última instância pela sucessão de configurações hermenêuticas que de época para época dão corpo e vida a tais identidades. Identidades são, pois, identificações em curso”. (In Língua Mar: criações e confrontos em português. 1996:143)

· No campo musical em Moçambique

O debate sobre a música produzida em Moçambique é com certeza importante, mas só até certo ponto. Ele ajuda-nos a esclarecer as nossas reflexões, e até a apresentar as nossas sugestões. Mas, no campo musical, tal debate, incluindo as questões etárias e de suposto conflito de gerações, tem uma relevância muito restrita. Aí, o que interessa é o resultado, ou seja, a produção dos músicos. Em Moçambique, e no meu entender, há muitas pessoas de faixas etárias diferentes, tanto indivíduos como grupos, a empenhar-se a produzir música e cujos esforços têm como objectivo realizar potenciais artísticos, nutrir carreiras e, não menos, entreter-nos a nós os restantes.

Neste empreendimento, cada músico há-de enfrentar várias pressões artísticas, de entre preferências e considerações estéticas, imperativos comerciais, influências culturais (tanto moçambicanas como estrangeiras), nível de conteúdo educacional e mesmo comentário social, escolhas de entretenimento, etc. Escusado será dizer, cada artista negoceia esta matriz de pressões à sua própria maneira – alguns mais bem sucedidos do que outros. Na verdade, o valor da música advém mesmo desta negociação.
No que diz respeito a este valor (da música) há, pelo menos, dois aspectos relevantes. Em primeiro lugar, saliente-se a existência, de facto, de diferentes valores a considerar. Por exemplo valor estético, comercial, cultural, entretenimento, educacional, etc. Em segundo lugar, somos nós, o público nacional e estrangeiro como Patrício sugere citando Pierre Bourdieu, que, em última análise, damos a nossa opinião colectiva sobre, e na verdade determinamos, o valor da música produzida em Moçambique. Neste debate trata-se essencialmente do valor cultural da música produzida em Moçambique, e, em relação à atribuição de identidade nacional, as idiossincrasias pessoais são irrelevantes. Em todo o caso, para poder ser bem sucedido, cada tipo de música, quer tradicional quer moderna, merece investimento adequado e suficiente divulgação nos órgãos de comunicação social. Eis o desafio para todos os moçambicanos.

· Conclusão

Em resumo, aventei que se pode afirmar que a música é mutável e sem contradição fala-se das raízes, no sentido metafórico, de um género particular de música relativamente à uma determinada identidade nacional. E que isto não significa necessariamente nem apelo ao essencialismo em música nem exclusão da restante música produzida em Moçambique, nem mesmo resistência à modernidade. Aventei ainda que embora um género particular de música pudesse merecer uma identidade nacional, isto não implica que haja uma identidade nacional naquela música. Reiterei a relação entre moçambicanização e moçambicanidade, ou seja, que estas são diferentes lados da mesma moeda. E chamei a atenção para o facto de que a música tem outros valores além do valor cultural.

Para concluir, acho que há muitos músicos em Moçambique que estão prontos, cheio de boa vontade e são capazes de tocar “ritmos locais produzindo música global” se conseguirem, no mínimo, apoio em termos de investimento adequado e suficiente divulgação da sua música nos órgãos de comunicação social. Será que tal apoio estará em breve disponível?

Daniel Doku, Maputo, 16/03/06

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