Ideias para Debate

Friday, March 03, 2006

Texto no Savana

No Savana de hoje publico a seguinte escolha de opiniões:

AS PALAVRAS DOS

OUTROS

Hoje cedo este meu espaço a uma série de outras pessoas. O tema comum é o confronto criado pela publicação das caricaturas em várias partes do mundo:

“Verdadeiramente só são caricaturas as que fazemos de nós próprios, ou seja, no seio de uma dada sociedade que se imagina como de pertença comum. (...) as caricaturas que fazemos dos ´outros´, como não partem da pertença comum, correm sempre o risco de ser tomadas literalmente e ofenderem quem é caricaturado (...) E quando tal acontece não se pode esperar que a ofensa seja expressa segundo as nossas regras.”

Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português

“A culpa é sempre do outro: o colonizador, o imperialismo, o sistema financeiro internacional, o FMI, o Banco Mundial. Quando é que começaremos uma auto-crítica que permitirá um diagnóstico lucido dos nossos fracassos?

(...) A educação deve ser modernizada. Deve abrir os espíritos, ensinar a reflectir, despertar o sentido crítico. O conhecimento do outro e dos seus sistemas de pensamento é um meio essencial praro o enriquecimento de si próprio”

Mohamed Charfi, antigo Ministro da Educação da Tunísia

“ Os muçulmanos usaram e abusaram do Islão para dissimular os seus erros, em vez de se colocarem ao seu serviço dando o bom exemplo.(...) Mas, é mais dificil ter abertura de espírito quando nos sentimos fracos, com ou sem razão.”

Mustafa Ceric, grande mufti da Bosnia

“ Enquanto um campo, o Ocidente, mantiver a sua hegemonia sobre o outro, o mundo muçulmano, e tentar controlar as suas riquezas, a animosidade continuará entre as duas civilizações. O respeito mútuo deve substituir a hegemonia.”

Abdullah Ahmad Badawi, Primeiro Ministro da Malásia

“ Não se trata de autocensura, mas sim de usar o bom senso. Numa situação como a que vivemos, e conhecendo a susceptibilidade que existe em torno destes temas, o bom senso deve ditar-nos o que fazer. Alguém verdadeiramente responsavel, que tivesse a certeza que uma caricatura podia ser como deitar gasolina para o fogo, guardá-la-ia para melhor ocasião”.

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura

“Nenhuma família de comentadores, muçulmanos ou não, pode, por si só, falar em nome do Islão”

Mohammad Khatami, ex-Presidente do Irão

“O Ocidente conduz esta discussão com auto-complacência, na base de que usufruimos de liberdade de imprensa. Mas quem não se deixa enganar sabe que os jornais vivem da publicidade e que, para os fazer, tem que ser tomado em consideração o que mandam certos poderes económicos.”

Gunter Grass, Prémio Nobel da Literatura

P.S. – Há umas semanas os Rolling Stones foram convidados a cantar para um programa de televisão de grande audiência.

Interessante foi que os donos do programa, por meios tecnicos, tornaram impossiveis de entender as letras de algumas partes das canções mais polémicas.

Não estou a falar da Idade Média, estou a falar de há poucas semanas.

Na livre América.

9 Comments:

  • ó machado se as únicas caricaturas que podemos fazer é de "nós" próprios e se nunca poderemos caricaturar os "outros" sem que eles se sintam vexados ("Humilhados" e "ofendidos") ocorre-me uma singela pergunta.

    Quem são os "outros" aos quais não posso caricaturar? Quem somos "nós" que (nos) podemos caricaturar?

    Poderia também desenvolver sobre a intraduzibilidade do humor, da in-comunicação inter-cultural (Vai com hífen e tudo).

    Poderia, se fosse caricaturista, coloca a única caricatura então possível - eu, encerrado a sete chaves, rindo-me de mim mesmo olhando o espelho.

    Ou poderia perguntar-me como é que um veterano caricaturista cai neste paradoxo.

    Caricatura é humor. Há bom e mau. Há o do "o respeitinho é muito bonito" e o desbragado, provocador. Podíamos dissertar sobre isso - que humor é possível?

    Eu achava muito mais piada que alguma visita contasse histórias, que ouvi em vários jantares e digestivos, de quem andou a mostrar Chaplin nos "distritos" como aqui se diz, diante de populações que nunca tinham visto "imagem em movimento" (como agora se diz). Chaplin é humor, e muitas vezes caricatural. Genial, é certo. Dirão porventura, ok, pode-se caricaturar e comunicar sem ofensa se se for genial. Nem discuto tal matizar do essencialista argumento que epigrafa o teu texto - mas questiono-me ainda assim: se assim for, quem mede o génio? quem é que tem a máquina para tal? ou os critérios? Esses tais "nós"? Ou esses tais "outros"?

    By Blogger jpt, at 4:20 PM  

  • JPT

    A citação foi tirada de um recente artigo do Boaventura na Visão. Lá ele explica bastante melhor essas ideias de nós e outros.
    Se tiveres acesso lê. Se não, eu vou ver se ainda não deitei fora a revista.

    Machado

    By Blogger Ideias para Debate, at 9:12 PM  

  • Sim eu vi que era do BSS. Mas a citação torna-a também tua. Se tiveres a revista arranja sff, que não conheço

    By Blogger jpt, at 11:48 PM  

  • Machado o amigo bloguista Nkululeko já me mandou o texto referido. hei-de ler

    By Blogger jpt, at 7:50 AM  

  • Teixeira

    Quando quiseres organizar a manifestação contra a censura, nos Estados Unidos, aos Rolling Stones avisa, que eu alinho.
    Sempre é um assunto mais actual, foi a 5 de Fevereiro passado.

    Machado

    By Blogger Ideias para Debate, at 9:37 PM  

  • Não contes comigo para isso. Honestamente, e ainda que aprecie algumas canções dos stones, acho que as suas líricas contém mensagens negativas, desrespeitadoras de modos de vida normais e saudáveis. São, sob a capa de divertimento, perniciosas para uma sã maturação da juventude. A liberdade de expressão tem limites, e um deles é, decerto, o prejuízo das novas gerações.

    By Blogger jpt, at 8:43 PM  

  • ( tenho de confessar: tenho a sensação que essa das caricaturas se passou há anos. Continua é a vender jornais.)

    Bom dia.

    :)

    By Blogger paper life, at 1:07 AM  

  • Criei um blog: http://ideiascriticas.blogspot.com/
    abraços

    By Blogger ESM, at 3:51 AM  

  • li o tal texto, matiza o que um parágrafo simples pode deixar entender. tá bem (discordo um pouco mas não o criticaria, já é questão de opinião)

    já agora, os stones parece que têm uma música de adoração e simpatia para com o diabo - merecem a censura, como os poderemos "nós" aceitar?

    By Blogger jpt, at 1:37 PM  

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