Ideias para Debate

Wednesday, March 29, 2006

Dueto Musical

Depois dos acordes do Doku, o Patricio Langa volta a entrar na música:

A Marrabenta, das cordas que se arrebantam!

Por: Patrício Langa

Ontem, em cumprimento de mais uma rotina, visitei o blog ‘ideiasdebate’ do Machado da Graça, principalmente ansioso em ler a resposta de Cahen a Macamo. Eis que me deparo com um texto, sobre música e identidade, réplica a outro que eu publicara há algumas semanas atrás no blog assim como no cultural do Notícias das quartas. Um texto, quanto a mim, agradável de se lêr fora enviado pelo caro bloguista Daniel Doku. Agradeço, desde já, a oportunidade que o seu comentário me proporciona de retomar o assunto e poder esclarecer as zonas de penumbra nos meus argumentos. Ocorreu-me, logo seguir a leitura do texto do Daniel um comentário, que já não me recordo onde o li, e vai mais ou menos com o seguinte teor. A réplica/crítica é a melhor maneira de valorizar a escrita de outrem. Ao efetuarmos uma crítica, acima de tudo, significa que do nosso precioso tempo dispensamos alguns minutos, horas, dias até para LER o outro, procurar entender o que outro escrevera. Não há, na escrita e no debate de ideias, melhor retribuição que essa. Passado todo este tempo desde que publicara o texto constituiu uma supresa agradável receber as críticas do Daniel Doku. É por essa consideração que retomei os argumentos do meu texto, alguns, para poder entender o Daniel e o seu julgamento aos meus argumentos. Achei, acima de tudo, a sua leitura do meu texto bastante cuidadosa e a sua crítica bem comedida. Esta, por isso, de parabens. Passemos, então, ao que interessa retorquir, ainda, no que tentei argumentar no debate sobre a música e identidade.

De todas as questões colocadas pelo Daniel a que mais me intrigou foi a sua qualificação de ‘emotivo’ e ‘inutil’ o meu argumento contra a ideia do ‘desenraizamento’ da música moçambicana. E, é por aí que começo, isso significa que ao responder não irei obdecer a sequência da sua colocação no texto.

Não vejo nada de ‘emotivo’ e ‘inutil’ no meu argumento, como sugere quando ao retorquir sustenta que o uso da palavra RAIZ, para identificar um género ou estílo de música, é uma figura de retórica. Concordo, consigo na classificação da comparação como sendo figura retórica. Discordo, porém, totalmente do sentido em que é essa figura é empregue e consequentemente do argumento que procura sustentar. Tentarei, no que se segue, dizer por que razão ao longo do texto, se me quiser acompanhar. Como suponho que irá, então, aí vai.

Emotivo, inutil, irrelevante e até instintivo é a natureza (qualidade) do debate sobre a música produzida em Moçambique. É emotivo, passe a redundância, justamente por apelar a um argumento emocional, isto é, aos sentimentos de pertença ou não a uma nação. Instintivo, porque creio fazer pouca questão da avaliação da plausibilidade desses argumentos emocionais. É inútil, acrescento, e tendencioso por que tende a desqualificar a aqueles a quem que não andam a busca de RAIZES mais de AZAS para voar mais alto(ritmos locais músicas globais). Isto parece circular, mais não é. A inutilidade reside, para mim, na resistência em apresentar os mesmos argumentos a mais de 10 anos, mesmo que a própria experiência quotidiana da música no país se rebele contra esses argumentos de ‘vocação essencialista’ para parafrasear Noa. E, por isso, insisto.

Quando se diz, por exemplo: os que não cantam música de RAIZ - sem se dizer que bicho é esse – sugere-se uma conclusão sem apresentar premissas que a sustentem. A conclusão que se sugere é que existe música de RAIZ. E como, ‘todo mundo acha’, o que é de ‘RAIZ’ deve ser defendido, senão morre, como sugere o próprio Daniel no seu texto, porque é ‘nosso’, apela-se a sentimentos nacionais, regioniais de pertença para justicar um mal entendido ou no mínimo algo ainda difuso. O que é musica de RAIZ-moçambicana- insisto? Argumentos apelativos da tradição ou retorno a RAIZ aos Jovens ‘perdidos’, americanizados são os exemplos recorrentes arrolados quando se quer dizer o que ‘e de RAIZ. Há uma linguagem tendenciosa para desqualificar essa música considerada não ‘enraizada’. É por essa razão que caricaturei, acho que sem nenhum exagero nisso, usando os termos profano e sagrado para cada um dos lados. Sagrado é o ‘nosso’, o de ‘RAIZ’ a ‘tradição’, a ‘nossa cultura’ que não devia ser infestada pelas impurezas do profano, do ‘outro’ seja ele americano ou Sul- Africano, que a deformam.

Não é meu enfoque como sugere o Daniel o debate do ‘valor cultural da música’, neglegenciando deste modo outros valores. É justamente o contrário, o que procuro fazer. Não reduzir ao valor cultural da música- principalmente quando este depende da existência de algo essencial naquela- os parâmetros para definir outros valores, por exemplo estético ou o da pertença a uma nação. Censura é dizer que o que não é de RAIZ, não é agradável, não é moçambicano. Isso não é o que faço no meu texto, pelo menos, de forma consciente e intencional. Reclamo, isso sim, espaço para a diferença, para a abertura ao mundo- e se quiserdes para o profano.

Se é imprudente, ao bom senso do Daniel, usar a dicotomia sagrado e profano para qualificar e classifcar os ‘estilos’ de música preferidos e não preferidos por aqueles a quem o meu interlucutor sai em defesa, não é nada decente ou prudente jogar para o lixo o trabalho de muitos músicos (talvez a maioria) que não se enquadra nos padrões ‘essencialistas’ de definição do que é música moçambicana de RAIZ.

Contudo a minha intenção não era retribuir com a mesma moeda, tipo quem com ferro fere com ferro é ferido. Nada disso. Pelo contrário, procuro, isso sim, é chamar atenção para o modo como a articulação instintiva de ‘maus’ argumentos pode resultar na desqulificação do trabalho, alguns até muito mais criativos do que os considerados de RAIZ, dos outros.

Sobre o mal entendido entre ‘Essência’ e ‘Raiz’.

Sob o pretesto de que confundo o significado de ‘Essencia’ e ‘Raiz’, o Daniel sustenta a conclusão de que no meu texto sou ‘demasiado crítico de outras opiniões legitimas’, como se essas fossem contrárias ao quadro analítico (...) escolhido’. E sou, mesmo. Mais não pelas razões, nem pelo diagnóstico pelo Daniel apresentado. Primeiro, sobre a confusão entre essência e raíz. Não sei se concordo com os dois significados do termo essência apresentados pelo Daniel. Subscrevo, no entanto, o primeiro sentido. Os outros continuam, também acho, irrelevantes para análise. O segundo parece reproduzir de forma, sofística, camuflada o essencialismo do primeiro sentido. Penso que esse problema deve se a dificuldade que o Daniel tem de enquadrar conceptualmente a MUDANÇA, o processual no seu raciocínio. Se a sua atitude –politicamente correcta - de dizer que admite influências de outros estílos. Parece que o Daniel fica buscando, um ponto seguro, fixo, de ancoragem, como quando fala de “grupo de indispensáveis caracteristicas para se definir um ser ou uma coisa”. Se admite que partilhamos o mesmo quadro analítico- da processualidade - porque fica buscando esse ponto de ancoragem? Provavelmente, a resposta seria só assim poderemos produzir a nossa própria identidade músical, isto é, a nossa música de RAIZ. Mas se é esse o caso, não noto mudança alguma no essencialismo do seu argumento que o diferencie dos que crítico. Por mais incorfortável que isso possa ser, a fusão que os ‘jovens’ fazem com ritmos de outros cantos do mundo não é o problema para o qual ver a música como mutavel e processual é a solução, mais um aspecto central dos contradições da indentidade nacional na música.

“Um grupo indipensável (essencial, queres dizer?) de caracteristicas de um ser ou de uma coisa”, é essencialismo meu caro Daniel, é buscar o ponto de ancoragem. Como se algo, no fundo, lhe perguntasse: em algum lugar, afinal, tem fim esta fluidez? Lá, nesse lugar, definiria o que é x ou y; neste caso o que é música moçambicana de RAIZ. Digamos, por exemplo, as três notas que ouvi uma vez um amigo sugerir que são o que define a marrabenta. Retirando-lhe ou acrescentando-lhe o que se quiser, devem sobrar três notas que definem a marrabenta como marrabenta. Isso é essencialismo puro, meu caro. A sua citação do Sociologo Português é bem vinda aqui! ‘Quem procura encontra, diz o ditado polular’ o Daniel já encontrou esse ‘grupo indispensável de caracteristicas’ que definem a marrabenta? Talvez existam, e eu não as conheça. A própria história do que é a marrabenta é uma estoria. Dias após a publicação do meu texto pelo cultural do Notícias acompanhei um debate na RDP-africa. No referido debate, alguem defendia que a etimologia da palavra marrabenta, portanto, provinha do arrebentar das cordas das violas de lata improvizadas nas faras dos subúrbios da Lourenço Marques, lá pelos anos 60. Marrabenta, então, não tinha nada a ver com ritmos, sons, etc mais com o quebrar das cordas pela precaridade dos instrumentos com que se faziam as violas. Não importa quanto de verdade existe nisto. É irrelevante para o argumento. Hojé a marrabenta existe como estilo musical, mais o que a define como tal são os sentidos (modernos) que atribuimos a essa mistura de ritmos, sons vozes etc. A marrabenta é uma música MODERNA, portanto, da cidade (do suburbio, isso não importa), com pretenções de ir a ao estúdio de gravação na rádio, lançada em LPs, tocada com guitarras electricas etc, etc.

É única música que tem essa história (trajectória) isso pode fazer com que a chamemos de Moçambicana. Mais esse apenas um momento dessa trajectória e trânsito infinito.

Ao usar o meu exemplo de Bourdieu que o Daniel traz para sustentar a existência da marrabenta, acaba por me atribuir um argumento que na realidade é seu. Esse argumento que se preocupa com o “grupo de indispensáveis caracteristicas”. O debate - superfluo - sobre o que é música de RAIZ moçambicana sucumbe, justamente, na busca desse grupo de caracteristicas indispensáveis. Quer tornar fixo, encontrar essência, em algo que esta em permanente mutação e trânsito. Aí, deve estar uma das razões da sua ‘fraca’ qualidade. Não seja pelo facto de serem músicos a conduzí-lo, mais desenboca no tipo de argumentos emocionais, instintivos e desqualificativos do que outros fazem. É por isso, que no meu texto, sugiro a teorização do debate e que outros intervenientes, como o Daniel, se façam ao debate. Neste sentido, esta até de parebens pela sua intervenção. A breve leitura Bourdieusiana que trago, mais uma vez, é, apenas isso, um simples exemplo de como isso pode ser feito.

O Daniel qualifica de peculiar a passagem em que questiono a plausibilidade da comparação entre a música e raiz. Penso, porém, que se não me fiz claro, o Daniel entendeu mal. A segunda alternativa parece-me mais correcta, até pela explicação que ele adianta para a fraqueza do meu argumento. Quando alguns músicos reclamam a distorção da “musica de RAIZ” moçambicana, fazem-no apelando ao discurso, vago, da globalização como o mal de todos os males. Duas dimensões fundamentais desse fenómeno multidimensional, para ser breve, referem-se as transformações das nossas concepções de tempo e espaço na modernidade. O sociólogo Britanico A. Giddens é um dos que se debruçou sobre este assunto com alguma profundeza. Há muitos outros, claro. Tempo e espaço não significam mais a mesma coisa! Para quê tanta volta. Um exemplo dessa mudança é o que esta acontecer connosco neste debate cybernético. Eu, aqui no Cabo, e o Daniel, suponho em Maputo, debatemos sem nunca nos havermos avistado a identidade da música em tempo recorde e em espaços físicos equi-distantes de cerca de 2417km. Basta um clique, e se o computador do Machado não resolver tirar um descanso, que estará a lêr esta resposta em breve. Com a música ocorre o mesmo. Os ritmos, sons, melódias, arranjos etc, viajam, mudam sofrem influências, hoje de quase todos os cantos, cada vez com maior rapidez que a 10, 20 30 ...anos.

Pois bem, segundo o Daniel, a RAIZ nasce, cresce e, (medra!) eventualmente morre; acrescento no mesmo espaço e talvez num tempo linear determinado. A não ser que se usem adubos ou se modifique geneticamente a planta ou até sofra a violência da intervenção humana ou animal ao arrancá-la da terra. Pois bem, o que é que isso tem a ver com a musica?

O Daniel diria: trata-se de uma metafora! Em nenhum lugar do meu texto interpretei isso, de outra forma, se não como metafora mesmo. Mais uma metafora é uma figura retórica que sugere comparação. Neste caso sem usar o termo comparativo. “A música é como raiz”, é figura de retórica. Mais a figura não é metafórica, pois usa o termo comparativo ‘como’. A música é raiz, pode ser metafórico. A figura retórica, no entanto, que é usada no debate sobre a música em Moçambique é figurativa mais não metafórica. É analógica. Aí reside o mal entendido do Daniel. Um argumento por analogia sugere, a partir de um caso ou exemplo específico para provar que outro caso, semelhante ao primeiro em muitos aspectos, é também semelhante num outro aspecto determinado. Já me explico. As analogias não exigem que o exemplo usado como analogia seja exactamente como o da conclusão. No entanto, as analogias exigem semelhanças relevantes. O crescimento, o desenvolvimento e a eventual morte da raiz, como sugere o Daniel são caracteristicas irrelevantes para o argumento da semelhança entre a música e a raiz. É irrelevante porque a natureza do crescimento, desenvolvimento e morte da raiz não tem nada a ver com aquela da música, no sentido, de ser influenciada por ritmos, sons de outros cantos do mundo. Espaço e tempo, aqui significam outras partes do mundo, outras gerações e não o processo natural do crescimento duma planta. Não é por a raiz crescer, desenvolver e morrer que ela deixa de ser raiz. Pelo contrário, o argumento essencialista sugere que é por a música de RAIZ sofrer influências de outros ritmos, sons, melódias (de outros lugares e tempos) que ela deixa de ser não só de RAIZ, assim como moçambicana.

É por isso que questionando este argumento pergunto: ‘O que faz a música de MC uma música desenraizada?’ Esse argumento não é meu, caro Daniel. É o argumento daqueles que negam a moçambicanidade e por essa via o ‘enraizamento’ da música de alguns e vice-versa. Da minha parte não vejo retórica alguma, no que defendi.

O Daniel tem razão quando diz que não distingo entre, e passo a citar-me: “o que faz uma produção musical – a criação harmónica de ritmos e sons e voz – merecer uma identidade nacional”? E, “Em outras palavras, em que reside a moçambicanidade da música?” Se entendemos que por moçambicanidade referimo-nos a identidade nacional dos moçambicanos, então, não há diferença nenhuma nas questões: são, semânticamente, idênticas! Por isso, não há porque tratá-las como se fossem diferentes.

Já agora, por curiosidade, qual é o grupo social que produz a marrabenta, e que por ser moçambicano a torna moçambicana? Para não me dar a resposta que não espero, espero que não venha falar dos ‘marrongas’, ‘machanganas’, ou coisa parecida. Esses são outra invenção(essencializada e naturalizada) – que só existem no sentido e na medida em que algumas pessoas as tomam em consideração nas suas acções – e assim passam a ter efeitos reais. Mais mesmo isso têm seus limites, senão mecanicamente, produziriamos as identidades que bem nos agradassem a qualquer momento independentemente de quaisquer constrangimentos.

O Daniel diz: “...identificar uma música como música moçambicana significa uma atribuição particular àquela música. É também um efeito significativo e, para merecer esta identificação, aventaria que a música, de entre outras coisas, há-de ter uma forma musical identificável”; Esta circularidade do argumento do Daniel só documenta a dificuldade que enfrenta para satisfazer o desejo ‘essencialista’ da busca do fixo e imutável.

Continua: “Assim, o Hip-Hop é música americana, o “Calypso” é música de Trinidade e Tobago e a Marrabenta é música moçambicana, etc.”
E o HIP-HOP do Mr.Arsen o que é? É musica americana? O Reggae do Lucky Dube, melhor dos UB40 o que é? A música do irmão do Filipe Nhassavele, não me ocorre agora o nome, radicado na Itália o que é?

O Daniel, sim, é que receia a morte da música, mais do que eu receio o tradicional. Não vejo mal nenhum nas tradições, desde que não sejam articuladas como razão para desqulificar outros, principalmente, quando nem se sabe de que tradição se esta a falar. Isso têm implicações nefastas. Já a morte de ritmos, sons ou música- se é que isso realmente pode ocorrer - que implicações tem? Qual é o mal que há nisso? Quanto a mim todos dias, em cada música nova morre e nasce o novo. Morre e nasce e renasce outra diferente e mais outras e assim por diante. É assim que as coisas são, talvez não como deviam ser para alguns, mais essa é uma questão normativa que não me interessa discutir.

O Daniel diz que só vejo uma questão onde ele identifica duas, e por isso acaba ele mesmo caindo em contradição na busca do pretenso segundo sentido. Se não, vejamos o que sugere: “... Assim, o Hip-Hop é música americana, o “Calypso” é música de Trinidade e Tobago e a Marrabenta é música moçambicana, etc.”, Americano, não sei como se diz isto “Trindadeano?”, Moçambicano referem-se, quanto a mim, a identidades nacionais. E a seguir o Daniel Diz: “Mas será que tudo isto significa uma reivindicação de que há uma identidade nacional em música? Isto leva-nos à segunda questão. Duvido que haja uma identidade nacional em música”.Pura contradição! Acabou de falar de hip-hop americano, marrabenta moçambicana etc, não são essas identidades nacionais em música, como sugeriu?

Não estou a negar que exista música mocambicana, estou, simplesmente, a tentar dizer que não são apenas, os ritmos e sons que se têm evocado como genuinamente moçambicanos que fazem música moçambicana ser moçambicana. O próprio debate em que nos envolve-mos, agora, é um elemento constitutivo dessa realidade música moçambicana, mais que não consta dos acordes e pautas de nenhum músico ou nenhuma música.

Penso que já respondi no essencial algumas das questões levantadas pelo Daniel. Mais uma vez não só o agradeço por as ter colocado, sinal de ter dedicado parte do seu tempo a tentar entender o meu argumento, mais pela clareza e cordialidade com que o fez. Espero ter, deste modo, contribuido para esclarecer as zonas de penumbra no que respeita ao meu argumento e que isso sirva para o que servir.

Patrício Langa

Cape Town

29 Mar. 06

11 Comments:

  • Tal como o Patrício, eu já vivi longos anos fora de Moçambique. E não era sem muita emoção que eu ouvia algum ritmo que me lembrasse Moçambique. Um Simiao Mazuze, um Salvador Maurício, um Mazembe. Algumas vezes sem conhecer o autor e sem entender a língua, conseguia no entanto localizar o que se cantava como oriundo de Moçambique. Creio que o Patrício tem uma experiência similar. No entanto, se eu ouvisse o MC Roger cantar os seus ritmos, numa língua que eu não entendesse, nunca o fixaria em Moçambique. Se ninguém me disser donde são os UB 40 eu localizá-los-ei nas Caraíbas. Esse debate do essencialismo/processualismo muitas vezes camufla coisas obvias. Há musica moçambicana sim, assim como existe musica cubana, portuguesa, angolana, russa, indiana, egípcia e por ai fora. Reconhecer isto é ser essencialista?

    Gabriel Muthisse

    By Blogger GM, at 12:30 AM  

  • Caro GM.
    Obrigado pela achega!
    Também me emociono quando escuto um Salimo Muhamed, aliás Simião Mazuze. Lamento não poder assistir ao seu próximo show acompanhado pelo irmão. Em nenhum momento, deste debate, recusei a existência de ritmos, sons e a combinação destes em música, se quiserdes, produzida em Moçambique(Moçambicana). O que defendo é que esses ritmos, sons foram e são, como o próprio país, um produto histórico sujeito a mudança permanente. Só isso. Que pode existir um processo de moçambicanização de ritmos e sons (de música) também não discuro. Mais discordo que tal se reduza a identificação de ‘grupo de indispensáveis caracteristicas’.
    O que faz o G.M se emocionar ao escutar os autores que mencionou, pode ser um conjunto infinito de coisas(Saber de quem é a música, saber qual é a nacionalidade do cantor, ter crescido a escutá-la, etc, etc todo um acervo de informação que o permite catalogar).
    Essas coisas não se reduzem ao facto de a música ser, genuinamente, moçambicana, e portanto de RAIZ?

    Um Swit, uma Neyma, um Mrs Arsen, uma Lisa James também me lembram Moçambique. Alguns nem cantam em Português. O que me faz lebrar moçambique quando os escuto não é alguma essência musical, estagnada e substâncial. É relação que tenho com esse fenómeno. É todo acervo de informação que me faz associar aquela música a Moçambique incluido saber qual é a nacionalidade dos cantores.
    E a música dos Kapa 10, dos Ghorwane, dos etc, e porque não a do próprio Salimo cantada em Russo? O GM saberia ligá-la a Moçambique? Talvez, sim, mais dúvido que fosse por algo substancial nos ritmos, sons etc.

    Aqui na RSA, podia discutir ‘até ficar rouco’ a nacionalidade da música de um Jimmi Dludlu. Qual é mesmo? É música moçambicana de RAIZ ou Sul Africana de RAIZ? Para mim, é moçambicana, para os seus admiradores aqui do Cabo é Sul Africana. Dizem que é Jazz original e Capetowniano. Eu que entendo algumas palavras de Chope, uso isso como pretexto para fazê-lo regressar a Moçambique. Essas coisas todas concorrem para que se defina a música como sendo de um lugar ou de outro.

    Para terminar e quiserdes mudemos para algo mais concreto - como diria Mia Couto: a mandioca se moçambicanizou vinda do Brazil, a Capulana se moçambicanizou, provavelmente, vinda das Indias, podia multiplicar os exemplos. Hojé ninguém discute a moçambcanidade desses produtos. Alguns até já geneticamente modificados o que significa que continuam a mudar. Porque é que o Hip- hop não se pode moçambicanizar, a Salsa, o reggae etc. O mesmo aconteceu com os ritmos considerados de RAIZ – Moçambicanizaram-se!
    Abraço

    P.L

    By Blogger PL, at 6:56 AM  

  • O que eu estou a querer dizer, precisamente, é que ha um conjunto da factores, essenciais se quisermos, que definem uma musica como Indiana. Os que conhecem esses factores essenciais, geralmente os musicólogos, se ouvissem um indiano cantar uma das musicas do Simiao Mazuze em hindu (será assim que se chama a língua daquele pais?), mesmo que gostassem, haveriam no entanto de dizer que aqueles ritmos não são indianos. Mesmo que virasse moda na Índia e todos os jovens passassem a cantar ao estilo do nosso Mazuze.

    O “Raggae” (Será assim que se escreve?), poderá ser, hoje, um ritmo universal. Mas ele foi desenvolvido e popularizado pelo génio dos jamaicanos. é por isso que quando escutamos este ritmo a imagem que nos vem é da Jamaica. Mesmo quando os músicos são de outras latitudes como acontece com os UB 40. Existem até casos de se tentar dar um cunho local ao “Raggae”, como acontece com o Dube na África do Sul, que o canta com uma fusão de ritmos sul-africanos. Todavia, na sua essência, o “Raggae” é Jamaicano.

    Isso quer dizer que a rumba cubana, por exemplo, ficou estática no tempo, e é tocada como se fazia no principio do século XX? Claro que não! Os próprios cubanos, com o seu génio, esforçam-se sempre por encontrar sonoridades novas para a sua rumba. Ademais, como ritmo universal que hoje é, recebe contribuições de outras latitudes.

    O caso do Dludlu que o Patrício coloca pode ter uma explicação. Ele não produz um tipo de musica que possa ser localizada no espaço. Jimmy Dludlu canta aquilo que se convencionou chamar por musica “fusion”. Eu próprio tive dificuldades em convencer um vendedor de discos numa grande loja de Cape Town que o Dludlu era meu conterrâneo. A corrente musical que o Jimmy Dludlu canta tem muitos adeptos pelo mundo fora e é fusão de vários ritmos como o seu nome indica.

    Um moçambicano pode cantar muito bem o funaná. Mas isso não transformaria este ritmo em musica moçambicana. Se insistíssemos em dizer que o funaná era moçambicano, tenho a certeza de que os cabo-verdiano rir-se-iam de nos; duvidariam também da nossa capacidade de criar.

    Eu só daqueles que pensa que o que se canta, a forma em que se canta, revela a alma de um povo. E uma das coisas de que mais medo tenho é que a globalização venha a produzir esse tal ritmo universal que parece ser do agrado de muitos.

    Gabriel Muthisse

    By Blogger GM, at 11:30 PM  

  • Bom Caro G.M
    Quando se entra num debate como este, que se prolonga por algum tempo, tende-se a esquecer o ponto de partida. É fundamental não perder de vista esse ponto, pois perdemos, no essencial, o que estamos a defender. Neste sentido, convido-o a re-Lêr o meu primeiro texto. Lá, talvez se dessipem algumas das questões que levanta no seu comentário. Não nego que música pode ser moçambicanizada. Os “jovens” que estão a ser des-nacionalizados tentam nacionalizar ritmos de diferentes cantos do mundo. E, nisso não há nada de excepcional. Os ritmos de um ou de outro modo sempre viajaram, mudaram, transformaram-se, estão em permanente e infinito trânsíto.
    Caso persistam as diferenças de opinião e os mal entendidos, acordemos em disacordar.
    Mas para terminar permita-me, em jeito mesmo de provocação, abalar um pouco as suas certezas. O reggae – popularizado por Robert Nesta Marley (Bob Marley) - de que sou fã é resultado daquilo que, no meu texto, chamei de ritmos em trânsito. Um conjunto de factores socio-históricos fizeram que na Jamaica dos anos 70 uma confluência de ritmos africanos, ská e calypso e, muito provavelmente, de outros lugares produzissem o tipo de música popularizado por Marley. Mas a história não ficou por aí (parada) o reggae continuou a viajar e a mudar de batidas, de ritmos com influências de todo o mundo. Hojé uma Lauren Hill - Wyclef Jean, UB40, Gilberto Gil, Eric Clapton, Lucky Dube etc, etc - de quem a música também me agrada – e por sinal nora de Marley- canta um tipo de reggae diferente do cantado pelo sogro ( mistura do R&B, Soul e etc). Dúvido que ela seja menos Jamaicana por isso. Dúvido que Marley e outros se reclamassem os guardiãos do reggae original. O próprio Marley foi considerado um modernista, inovador, no seu reggae (por defensores do Tradição do Reggae). Se os tivesse dado tanto ouvido, talvez o Raggae nunca se tivesse popularizado como o aconteceu. (Mas, o SE, dizem, não serve para analises). O reggae popularizou-se e universalizou-se! Mas popularizou-se pela inovação que Marley e outros empreenderam nele trazendo o novo. Hoje existe reggae no Brasil, em Moçambique, na RSA etc, etc. É esse desafio que eu lancei aos nossos músicos. Com ritmos locais produzir músicas globais. Mais não caiam na ilusão de que o local é puru, intocável, sagrado, de RAIZ, essêncial. Por que não é! O próprio local é histórico e incorpora outros locais em si (fisicos, imaginários, virtuais etc). Basta um pequeno exercício arquelógico e genealógico para se revelar a sua multiplicidade e historicidade.
    Podia contar a mesma história, do Reggae, para cada um dos ritmos que insinua serem de RAIZ (X ou Y). O funana (produz-se, hoje, mais na Holanda do que em cabo verde(?)Acho!; o Semba- gerou o samba segundo Mia Couto, a Rumba, Salsa etc etc são produções resultado de misturas de confluências de diversos lugares e povos; continuam viajando e mudando. Sempre em trânsito! Porque não pode acontecer o mesmo com a Marrabenta, que também é uma mistura!
    Já escutou a Zaida Chongo e o Xiquito, só para citar um exemplo? Já agora o que canta-va a Zaida é marrabenta de RAIZ?
    Agora, mais uma vez, remeto-o ao meu primeiro texto, para outros aspectos- que não debato nos meus comentários- sociológicos que influênciam o ‘campo da arte’, em particular, e da produção cultural em geral, e que ditam as suas regras.
    Esses aspectos precisam ser estudados no nosso país, para sairmos das falsas questões por exemplo, geracionais - velha e jovem geração - o que isso significa?; essencialistas, música de raiz e não de raiz - o que isso quer dizer?; que informam o debate sobre a música e sobre os produção cultural de modo geral. Precisamos entender a ‘economia política da produção dos bens simbólicos’ para sairmos desse nivel, instintivo, de debate.
    Concordo com a sua sugestão de que pessoas especializadas (musicólogos e não só) se interessem por estas questões. E não me refiro apenas aos ciêntistas sociais – que no nosso País parece serem inúteis(indesejáveis porque não combatem a pobreza absoluta, nem a de imaginação) mas a todos os ramos do saber. Tenho um amigo, Porto Riquenho, matemático e músicologo que vem estudando, matemáticamente, há anos, composições ‘africanas’ e as digressões universais dos ritmos.Interessante!
    Para terminar, mais uma provocação. Porque é que há necessidade de se especificar nos discos o nome do autor, as vezes o país, a nacionalidade, os ritmos que compõem o disco etc, etc? O que é que não é FUSÃO, hoje? Não É FUSÃO, PORQUE LEVA O NOME FUSÃO?
    Fiquemos por aqui, concordemos em Discordar! Para mim, Não EXISTE “Essência” na Musica.
    Abraço

    By Blogger PL, at 6:49 AM  

  • Caro Machado.
    A resposta de M.C a E.M, sai ou não sai?
    BFS

    By Blogger PL, at 7:17 AM  

  • Provavelmente o que causa ruido seja essa tal coisa que chamam “moçambicanização”. Donde é que vem este neologismo? Em tempos debati esta questão das confluências que dão origem a culturas e a nações. Sempre existiram desde que o mundo é mundo. Já escrevi por exemplo que Portugal vive um processo de miscegenação desde a sua origem, processo que se reforçou com a ocupação árabe do séc. VII e, mais tarde, com a convivência com outros povos, incluindo africanos.

    Só que no caso moçambicano, esta questão do processualismo é esgrimida de maneira fundamentalistica, como se tudo tivesse que começar de zero. Este país que se chama Moçambique tem cerca de 20 milhões de habitantes que vivem, criam provérbios de riqueza extraodinaria, criam contos de rara beleza, fazem música, cantam, esculpem, pintam há milhares de anos. Não está pois em “processo” mais do que nenhum outro país.

    As confluências culturais no nosso país criaram, só para citar um exemplo, o tufo, cujas sonoridades lembram vagamente o próximo oriente. No entanto o tufo é essencialmente moçambicano, da mesma forma que a rumba cubana, outro exemplo, que recebeu confluências de várias partes do mundo, é eminentemente antilhana. Ou o fado, que já ouvi musicólogos dizerem que recebeu contribuição árabe, é essencialmente português.

    Eu até já vi um esforço de nacionalizar o Hip-hop. Só que esse esforço não foi empreendido por moçambicanos, mas pelo agrupamento angolano SSP que introduziu naquele ritmo americano um qué de alma angolana.

    Só que, continuo a defender, é muito mais fácil um jovem moçambicano fazer sucesso comercial por cantar sons que o génio de outros países produziu e popularizou. Só que este sucesso comercial costuma ser de pouca duração porque não é respaldado por trabalho árduo. O percurso seguido por pessoas como o José Mucavel, Simião Mazuze, David Mazembe, os Djakas, o Eyophuros e outros é mais difícil. E do meu ponto de vista, é desenvolvendo e internacionalizando estes sons que nos identificam que o génio musical dos moçambicanos se há-de revelar. E não cantando melhor o funaná que os cabo-verdianos (a propósito, o funaná é cantado na Holanda principalmente por cabo-verdianos e não por holandeses. Isto significa que a gressividade cultural dos cabo-verdianos continua a manifestar-se. E isto deveria servir de inspiração para os músicos do nosso país, qualquer que seja a sua iddade).

    E o facto de Lauren Hill cantar um “Raggae” diferente daquele que era cantado por Bob Marley nada tem de extraordinário. Eu já havia referido que a rumba cubana, por exemplo, cantada hoje, é diferente quaquela que os cubanos popularizaram pelo mundo fora nas primeiras décadas do século XX. E que este desenvolvimento da rumba cubana se deve essencialmente ao génio dos cubanos que, incensantemente, procuram novas sonoridades para todos os ritmos que identificam aquela ilha. E deve-se às contribuições sonoras de pessoas de outras latitudes que se apropriaram daquele ritmo que não deixa de ser cubano

    Os seu últimos comentários contêm um equívoco, ao sugerir que o “raggae” surgiu na década 70. Aquele ritmo musical já era cantado na Jamaica muito antes da existência de Bob Marley. Este, num rasgo de génio (gosto desta palavra), introduziu no “Raggae” novas sonoridades que o transformaram num sucesso mundial.

    By Blogger GM, at 3:49 AM  

  • Caro G.M
    Fiquemos por aqui. Como disse começamos a perder o essencial do que esta em debate. Em nenhum momento sugeri que o melhor para a nossa música é optar pelo mais fácil. Pela falta de criatividade. No entanto, quem decide sobre que é facil e o que não é fácil? Isso para mim é mais importante. Quem define o que é moçambicano e o que não é moçambicano, e com que fundamentos? Isso para mim é mais imortante! Quem decide sobre quais são os sons que nos identificam e quais são os que não nos identificam? O G.M? Os músicos MAIS VELHOS? Quem? O G.M elege Mazuze, Mazembe, os Djakas etc, na base de que crítério? O que significa música que nos identifica? Há milhares de moçambicanos que se identificam (gostam, cantam-na, dançam-na em festas - se não me engano o próprio G.M mexe o pezinho, mesmo que seja de forma discreta - com a música de muitos destes “jovens” musicalmente desnacionalizados. Posso lhe garantir que MC Roger e sua música (já critiquei o que no meu ponto de vista representa alguma falta de criatividade deste cantor, a pobreza de suas letras por exemplo) mas mais conhecido em moçambique- de lés- a lés do que a música e a pessoa de Mucavél. Nesse sentido, MC até é musicalmente mais moçambicanizado do que Mucavél. É heresia, minha? Que seja, mais é uma heresia assente no REAL. Digo mais, pessoalmente, não gosto da música de MC. Mais não pelas razões defendidas pelo G.M e pelo D.Doku nos seus textos. No meu texto inicial, falei das fontes que de alguma maneira me inspiraram no debate sobre a identidade moçambicana.
    Todas as fontes que mencionei realçam, como referi, a ideia de processualidade (moçambicanização) nesse desiderato (projecto) de “ser”, melhor de se “estar”- é um vir a ser que ainda não é, para parafrasear Ngoenha - moçambicano.
    Macamo, Elísio, Serra, Carlos, Ngoenha, Severino, penso serem os autores a que me referi a título exemplar. Ao olharem a construção da identidade Moçambicana nesta perspectiva, não consigo ver em que medida estes clamam por um inicio de ZERO, muito menos em que consiste o fundamentalismo desta postura teórica. O G.M deve estar a confundir os termos!
    O G.M tem razão quando se refere ao equivoco que cometo sobre o surgimento do Reggae. O que quiz dizer, porém, é que o Reggae começou a popularizar-se na década de 70. Aceito o reparo, é na sequência disso que me refiro aos defensores da “tradição do Reggae”…

    By Blogger PL, at 1:08 AM  

  • Caro G.M
    Fiquemos por aqui. Como disse começamos a perder o essencial do que esta em debate. Em nenhum momento sugeri que o melhor para a nossa música é optar pelo mais fácil. Pela falta de criatividade. No entanto, quem decide sobre que é facil e o que não é fácil? Isso para mim é mais importante. Quem define o que é moçambicano e o que não é moçambicano, e com que fundamentos? Isso para mim é mais imortante! Quem decide sobre quais são os sons que nos identificam e quais são os que não nos identificam? O G.M? Os músicos MAIS VELHOS? Quem? O G.M elege Mazuze, Mazembe, os Djakas etc, na base de que crítério? O que significa música que nos identifica? Há milhares de moçambicanos que se identificam (gostam, cantam-na, dançam-na em festas - se não me engano o próprio G.M mexe o pezinho, mesmo que seja de forma discreta - com a música de muitos destes “jovens” musicalmente desnacionalizados. Posso lhe garantir que MC Roger e sua música (já critiquei o que no meu ponto de vista representa alguma falta de criatividade deste cantor, a pobreza de suas letras por exemplo) mas mais conhecido em moçambique- de lés- a lés do que a música e a pessoa de Mucavél. Nesse sentido, MC até é musicalmente mais moçambicanizado do que Mucavél. É heresia, minha? Que seja, mais é uma heresia assente no REAL. Digo mais, pessoalmente, não gosto da música de MC. Mais não pelas razões defendidas pelo G.M e pelo D.Doku nos seus textos. No meu texto inicial, falei das fontes que de alguma maneira me inspiraram no debate sobre a identidade moçambicana.
    Todas as fontes que mencionei realçam, como referi, a ideia de processualidade (moçambicanização) nesse desiderato (projecto) de “ser”, melhor de se “estar”- é um vir a ser que ainda não é, para parafrasear Ngoenha - moçambicano.
    Macamo, Elísio, Serra, Carlos, Ngoenha, Severino, penso serem os autores a que me referi a título exemplar. Ao olharem a construção da identidade Moçambicana nesta perspectiva, não consigo ver em que medida estes clamam por um inicio de ZERO, muito menos em que consiste o fundamentalismo desta postura teórica. O G.M deve estar a confundir os termos!
    O G.M tem razão quando se refere ao equivoco que cometo sobre o surgimento do Reggae. O que quiz dizer, porém, é que o Reggae começou a popularizar-se na década de 70. Aceito o reparo, é na sequência disso que me refiro aos defensores da “tradição do Reggae”…

    By Blogger PL, at 1:24 AM  

  • É injusto sugerir o fim do debate e, no entanto, continuar a apresentar argumentos. Sobre a sua pergunta “quem decide o que é moçambicano?” responderia: o conhecimento que cada um de nós tem dos fenómenos universais. Nunca iria dizer que o funaná fosse moçambicano, por mais bem cantado por moçambicano que fosse. Isto porque sei que aquele ritmo é cabo-verdiano.

    Sobre o Mc Roger ser mais conhecido que um Mucavel (esta escolha foi apenas para exemplo) até pode ser. Contudo o trabalho que está por detrás das produções de ambos faz-me intuir que a “balada para as minhas filhas” ha-de perdurar mais que qualquer das musicas que eu conheço do Rogério Dinis.

    Não creio que o PL esteja a sugerir-me que qualquer dos autores que citou (Elisio Macamo, Carlos Serra, Severino Ngoenha) subscrevam o seu texto sobre a identidade da musica. Conheço pessoalmente alguns dos autores que citou. Entendi o contexto em que usaram o termo “processualismo”. No entanto, nem todos os que vierem a usar aquele termo o hao-de fazer com propriedade.

    By Blogger GM, at 6:51 AM  

  • Caro G.M
    Mais uma vez tem razão. Pode ser que estivesse a ensaiar uma fuga estratégica. Seria batota, minha! Mas não é o caso. Concordemos que andamos a lés das questões centrais que me levaram a intervir neste debate. Senão vejamos:

    Em nenhum momento eu recusei que a Marrabeta, por exemplo, fosse música moçambicana. Estou cansado de repetir isso. O que defendi e ainda defendo é que a constituição da identidade musical é um fenómeno complexo, e porque não, paradoxal. Envolve elementos de identificação e identização (inclusão e exclusão) de ritmos, sons, melodies etc de origens múltiplas que estão em permanente mutação e trânsito. Neste sentido, não me parece prudente falar-se de essência musical muito menos usar esse argumento essencialista para atribuir ou recusar a identidade nacional musical de ritmos emergentes e/ou apropriados pelos músicos. Não há história de qualquer música de qualquer país que não passou por esse processo de apropriação de ritmos e sons de ‘outros’ cantos. Sou daqueles que acha que é possivel, moçambicanizar o funana, a salsa, o reggae etc etc. Este é o meu argumento! Não vejo razões plausíveis, ainda, para o modificar.

    O G.M introduz um aspecto que não era central ao debate. Mais já agora! A perdurabilidade da música. Será esse um críterio fiavel para definir o que é de RAIZ?[ Estou com receio de fazer mais perguntas]. Esta a sugerir, em outras palavras, que as músicas que perduram são as que podem ser consideradas essencialmente moçambicanas? Se sim, discordo em absoluto!
    Tenho para mim que o que faz uma música perdurar é todo um conjunto de factores entre eles o marketing, arquivo histórico e discográfico, estudos, reedições, 'remix', misturas etc. E isso pode ser feito com qualquer música. As “Baladas da minha filha” pode estar a perdurar, também, por que é a única coisa que Mucável canta há mais de vinte anos, e vai continuar a cantar a vida inteira! Esse trabalho de repetição, incansável, as polémicas (última que acompanhei foi com Wazimbo) em que ele se envolve para defender que a sua música é de RAIZ é um elemento que concorre para essa perdurabilidade. Isso faz parte das estratégias utilizadas na luta pela imposição de visões sobre o que é essencial ou não na música. São estes elementos se quisermos, sociologicos, que falta explorar no debate sobre a música em Momçabique. Sugerir que se pense sobre esses elementos foi a principal razão da minha intervenção. Se não me fiz entender até agora, então, o problema deve estar na minha incapacidade em fazê-lo.
    Por último, o G.M entendeu correctamente o que eu quiz sugerir ao citar os autores que citei. Uma coisa é dizer que os autores subscrevem o meu texto sobre música e identidade e outra bem diferente é dizer que me inspirei neles. Não se esqueça que foi em resposta a sua pergunta sobre o que essa coisa de moçambicanização que mencionei esses nomes. Por conscidência, também conheço pessoalmente, e muito bem, todos os autores que mencionei. Mais não vejo nesse aspecto, irrelevante para o debate, previlégio algum que me possibilite interpretar melhor os seus escritos que qualquer outra pessoa que os tenha lido com cuidado. Na verdade refiro-me aos escritos e não as pessoas em si. Penso que nem deviamos trazer ( as nossas relações amistosas) aqui para o debate. O facto de o G.M os conhecer (pessoalmente) não o confere nenhum previlégio na intrepretação correcta dos seus argumentos. Senão, não os estaria a chamar de fundamentalistas da processualidade e a sugerir que estejam a querer começar tudo do zero como fê-lo num dos seus comentários.
    É por estas razões que acho que já esgotamos os argumentos ou melhor perdemos o essencial do debate.
    Abraço

    By Blogger PL, at 5:47 AM  

  • Caro G.M
    Não sei se se encontra no Maputo. Se sim, acho uma oportunidade impar participar no seminário com o título a baixo, a decorrer no Departamento de Arquelogia e Antropologia da UEM.

    LOCAL: SALA 624
    Novo Complexo Pedagógico
    Campus Universitário
    INÍCIO: 10.00 Horas
    Quinta-feira, 6 de Abril de 2006
    Dr. Katrin Hansing
    German Research Council
    University of Bayreuth, Germany

    Se eu me estivesse em Maputo , não perderia a oportunidade! Abraço
    Rastafari: The Globalisation of Local Jamaican Popular Culture and its many Localisations
    Abstract

    Within the past three decades the Jamaican Rastafari movement has been transformed from a local Caribbean to a global cultural phenomenon. Reggae music and other popular cultural media have been the primary catalysts in the movement’s international spread. As a result, Rastafari has moved beyond its original Jamaican, territorial moorings and become a travelling culture. Global in scope, Rastafari has nevertheless been localised in very different ways, depending on where the movement has been appropriated. This talk will examine Rastafari’s emergence, development and internationalisation as well as localisation in various different cultural contexts. In so doing it will pay particular attention to how the movement manifests itself as a culture of resistance in very different socio-cultural environments.

    By Blogger PL, at 5:54 AM  

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