Ideias para Debate

Tuesday, February 01, 2005

Socializar o risco

Mais um texto de Elisio Macamo, da série: O Que a Campanha não discutiu. Desta vez sobre a segurança social e áreas à sua volta:

(6) Socializar o risco

Há momentos na nossa vida em que prolifera um certo tipo de espíritos. Chamo a estes espíritos “imprevisíveis” por razões que vão ficar claras ao longo deste artigo. A nossa religião tradicional, pelo menos a do sul de Moçambique, identifica três tipos. Os espíritos naturais, os espíritos dos antepassados e os tais “imprevisíveis” ou, para utilizar a terminologia local, espíritos de “mudhliwa” (do que foi comido”). Os naturais dominam os fenómenos naturais. São eles que decidem quando deve chover ou não; são poucos os magos capazes de os dominar, na verdade, é preciso o concurso de toda a comunidade para influenciar estes espíritos. Cerimónias como “Mbelele” – para afugentar gafanhotos ou mandar vir chuva – apelam a estes espíritos.
Seguem-se os dos antepassados, o grande sonho de cada um de nós. Na nossa religião tradicional quando alguém morre transforma-se num espírito. A vida começa com a morte. Os espíritos dos antepassados é que determinam todos os aspectos da nossa vida. Se tropeçamos e caimos não é porque não vimos o entulho que os carros de lixo do concelho municipal se esqueceram de recolher. É porque um espírito nos empurrou. Eles empurram-nos porque nos querem dizer qualquer coisa. Quando esse tipo de incidentes se multiplica temos que consultar um vidente que vai exorcitar os espíritos dos nossos antepassados. Depois de beberem vinho, coca-cola e fumarem do melhor tabaco que os nossos bolsos podem comprar, esses espíritos vão nos dar instruções sobre o que devemos fazer. Normalmente, temos que cuidar da nossa família, observar certos rituais, etc. Estes espíritos não matam ninguém porque são os nossos avôs, pais, tios, etc. Protegem-nos, sobretudo a tia paterna.
Finalmente temos os espíritos que me interessam hoje. São cantados, por exemplo, por Xidiminguana no seu tema “xikwembu xa mudhliwa”, embora como sempre, com muita ironia e hipérbole. Estes espíritos são responsáveis por tudo quanto corre mal na nossa vida. Trata-se de pessoas que morreram longe dos seus lugares de origem e que se prestam a serviços diversos na esperança de que o cliente depois lhes acompanhe de volta à casa. Pessoas que querem enriquecer, promoção no serviço, sucesso na vida amorosa, etc. podem se servir destes espíritos.
Para o efeito, crê-se que tenham que praticar actos abomináveis tais como manter relações sexuais com os próprios filhos ou irmãos ou mesmo matar parentes. Depois de feito o trabalho, e se o cliente não é capaz de continuar a satisfazer as exigências dos espíritos, estes querem ser levados de volta à casa. Podem não manifestar este desejo durante gerações e, de repente, perturbar uma determinada família. Não é preciso que uma pessoa tenha usado os serviços destes espíritos para ser cobrado. Daí o facto de eu os chamar de “imprevisíveis”.
Muitos de nós, pelo menos no sul de Moçambique, passamos uma boa parte do nosso tempo a acompanhar espíritos de volta à casa. Nos últimos quinze anos o espírito com maior conjuntura é o de “Mungoi” que está presente em quase todas as famílias do sul. Estes espíritos, ao contrário dos outros dois, matam. São perigosos se não se faz a sua vontade. Uma particularidade muito interessante destes espíritos é que costumam ser identificados com gente que por uma razão ou outra é bem sucedida nas coisas que faz. Sobre estas pessoas contam-se as histórias mais bizarras e quanto mais bizarras forem, mais plausíveis são aos ouvidos das pessoas.
Moçambique está a atravessar um momento em que há uma forte predominância destes espíritos. A minha explicação para isso não é de que se regista um aumento substancial nos níveis de irracionalidade entre nós. A minha explicação é funcional. A atracção que estes espíritos exercem sobre nós vem do facto de constituirem uma excelente resposta à precariedade da nossa existência. A nossa vida é dura, imprevisível e quase que isenta de sentido. Os espíritos imprevisíveis ajudam a cada um de nós a explicar o infortúnio individual e a encontrar gente a quem responsabilizar. Todos nós estamos a viver num contexto social moderno, mas na base de referências sociais tradicionais. É um contexto extremamente individualista, mas a nossa resposta a essa condição é a família e a comunidade. O problema, contudo, é que a família e a comunidade, no seu estado original – se é que já existiram assim – não estão disponíveis. Suspeito, inclusivamente, que esta ideia de família alargada seja uma resposta recente às dificuldades actuais. É muito provável que no passado tenha havido uma forte dose de individualismo na nossa conduta que teve que ser abandonada, contudo, como reacção às condições precárias impostas pelo colonialismo. A ideia do colectivismo natural africano pode não ser bem verdade.
As sociedades modernas responderam aos processos de individualização com sistemas de segurança social. Noutros termos, elas socializaram o risco, isto é distribuíram os perigos duma existência precária devido a todo o tipo de infortúnios por toda a sociedade numa base monetária. O risco, numa acepção mais simples, é a probabilidade de algo vir a correr mal. As seguradoras vivem dessa probabilidade. Da mesma maneira, os sistemas de segurança social criam segurança manipulando essa probabilidade. Não reforçaram os laços colectivistas como nós reagimos ao colonialismo, mas sim reinventaram o colectivo na sociedade. É disto que o nosso País precisa, menos de PARPA com a sua visão escatalógica, e maior vínculo político prático entre o indivíduo e o Estado. Repensar o nosso sistema de segurança social seria um importante passo nesse sentido.