Ideias para Debate

Monday, January 24, 2005

Elisio Macamo comenta Tibana

Caro Machado da Graça,

Gostava de comentar, brevemente, o texto de Tibana. Acho que ele
nos proporciona uma leitura bastante astuta das últimas eleições.
Está de parabéns por isso. Tenho, pessoalmente, alguns
problemas com o tom da sua análise.
Acho que o seu esforço de perceber o que se está a passar em
Moçambique faz com que dê muita coerência de propósitos a um
grupo de pessoas. Não creio que seja útil analisar os problemas do
nosso país desta maneira. É verdade que há corrupção, nepotismo,
indiferença, arrogância, irregularidades nos processos eleitorais.
Esses males, contudo, não se explicam por uma acção
concertada de seja quem for.
Penso que precisamos de separar dois problemas,
nomeadamente, primeiro, a nossa condição de país em
desenvolvimento e, segundo, aquilo que na falta de melhor termo
gostaria de chamar de lógica situacional. No que diz respeito ao
primeiro não me parece prudente descurar o facto de que muita
coisa que funciona mal em moçambique funciona mal porque o
nosso aparelho de estado, as nossas instituições, pura e
simplesmente funcionam mal. Não acho prudente reduzir isso a
planos malévolos de seja quem for. Quanto ao segundo problema,
penso que devemos ter sempre presente que as pessoas -
independentemente da sua orientação política, do seu extracto
cultural ou racial - têm a tendência de procurar tirar proveito
individual de determinadas situações que se prestam a isso. O
nosso país, pela sua estrutura actual, sobretudo devido à
dependência do auxílio ao desenvolvimento, dispões de "iscas"
que funcionam como uma tentação sobre espíritos fracos. Para o
bem da procura de melhores formulações dos nossos problemas
penso que devíamos ter isso sempre em mente.
Embora oportuna e útil a reflexão de Tibana peca por não distinguir
claramente estes problemas. Um debate sério de ideias não pode
prescindir destas distinções.

um abraço

Elisio

1 Comments:

  • Caro Machado da Graça,

    Permita-me responder brevemente ao comentário do Elísio Macamo ao meu texto sobre as eleições em Moçambique. Quero primeiro pedir desculpas a ti e ao Macamo por vir tarde com esta resposta, devido a minha re-localizacao para o Ghana aonde estou desde a semana passada para pelo menos os proximos 12 meses. É que assim tenho o beneficio do tempo que passou ter permitido que algumas das minhas “conjenturas” nesse (im)famoso artigo se pudessem ter tornado realidade, o que é injusto no debate. De qualquer modo, aí está:

    1. O Elisio Macamo diz que a minha análise peca por dar “muita coerência de propósitos a um grupo de pessoas”. Pergunto-lhe: aonde estão os resultados distritais e provinciais das eleições, que como manda a lei devem ser publicados pela CNE? Que eu saiba, até hoje em nenhuum sítio, e como consequência vivemos com somas sem parcelas! E quem são os obreiros dessa façanha? Fantasmas? Creio que não! Eu continuo a acreditar que isso é obra de “um grupo de pessoas”, com um propósito bem determinado (embora nem todos o saibmos – talvez venha a ficar claro daquí a 40 anos através de escritos de um outro maldito (!?) Nkomo! E quem manda na CNE? E o que tem dito o PGR nomeado pelo Presidente que cessou e mantido pelo Presidente eleito? E o partido “vencedor”? Pesquisando as respostas a estas perguntas talvez o Elísio Macamo vá encontrar as razões para ver ordem no caos! Há sim ordem no caos, e alguém (“um grupo de pessoas”) cria essa (des)ordem”!

    2. O Macamo sugere diz que não há acção concertada na corrupção, nepotismo,
    indiferença, arrogância, irregularidades nos processos eleitorais! Pergunto-lhe: será que as maiorias que aprovam as leis e os seus mandatários que as implementam são virtuais em vez de reais? Quem mandava no executivo que emitiu circulares que “legalizaram” a apropriacao privada de comissões (de facto dinheiro do contribinte e dos doadores extrernos) sobre as compras de bens e serviços do Estado que desde 1996 enriqueceram os “fantasmas” que construiram as coisas que vimos na dita Somerschield II, barreiras da marginal de Maputo, e por aí fora? E os devedores recalcitrantes dos bancos que faliram e foram recuperados com dinheiros públicos também não existem?

    Se não fosse pelo respeito que tenho pela integridade intelectual do Elísio, não lhe responderia a afirmação que faz de que “Esses males, contudo, não se explicam por uma acção concertada de seja quem for.” Por isso tenho que responder: O Elísio não parece estar a viver neste mundo! E como tudo o que diz a seguir no seu comentário me parece de facto ser consequência do seu equívoco “situacional”, me dispenso de mais comentários. É teoria bonita, mas sem pés no terreno dos factos. Macamo: Estamos a falar de problemas reais, e não virtuais!

    Um abraço enviado do outro lado do nosso querido continente!
    E perdoe-me a injustiça de responder tarde.

    Roberto Tibana (Accra/Ghana/26.02.2005).
    ).

    By Blogger R J Tibana, at 6:38 PM  

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