Ideias para Debate

Wednesday, February 09, 2005

A diáspora

Continuo hoje a trazer para o blog a série de artigos que Elisio Macamo publicou no Notícias, sob o título comum: O Que a Campanha não Discutiu.
Hoje o tema é a integração dos moçambicanos na diáspora, questão a que o autor é sensível, sendo ele próprio um moçambicano a viver na Alemanha:

(8) Integrar a diáspora

Quem não viaja vai casar com a própria irmã. Este é um ditado xangan que se refere aos que ficam presos à sua aldeia natal e não sentem a necessidade de descobrir o mundo. O sentido não é literal. O ditado quer, na verdade, dizer que quem não viaja não tem outras referências senão aquilo que já conhece. E isso é pouco. O ditado reflecte também uma forte e longa tradição de contacto externo. Os moçambicanos andam. Há vários séculos. E nessas andanças encontram novas formas de viver, de se comportar, de ver o mundo que trazem de volta para a terra natal e lá domesticam. Há anos o meu coração derreteu-se numa zona recôndita da província de Gaza quando deparei com uma barraca com as seguintes inscrições “Take Away Macamo”.
Moçambique foi feito por gente que anda. O sul, o centro e o norte do País são impensáveis sem a história da migração de trabalho. A nossa libertação é impensável sem o papel dos que atravessaram fronteiras. A contestação do tipo de libertação que tivemos é impensável sem o papel dos que se deixaram ficar no exterior. Somos um povo em marcha. Na verdade, vistas as coisas neste prisma é difícil perceber porque nos anos oitenta no aparelho do Estado se impunha a “experiência de viagens” como condição para fazer parte duma delegação para o exterior. O que define um moçambicano é justamente a viagem.
Hoje em dia vivem muitos moçambicanos fora das fronteiras nacionais. Com o alargamento do direito de voto a eles deu-se um passo importante na sua inclusão nos assuntos da terra. É tão alta a consideração que por eles se nutre que até são chamados “moçambicanos na diáspora”. Esta metáfora é interessante, apesar de que o seu significado provavelmente ande perdido por aí. A palavra “diáspora” vem do grego e refere-se à qualidade do que se espalha. Foi empregue para descrever o destino do povo judeu que se espalhou pelo mundo fora e ficou condenado a viver como minoria. Os próprios judeus deram ao termo um significado emocional ainda mais forte. Viver na diáspora fazia parte dum destino traçado “das alturas”, para parafrasear um autor moçambicano, pelo qual todos os judeus deviam passar para poderem merecer o estatuto de “povo eleito”.
A história dos judeus está prenhe de metáforas profundas para os africanos. Não admira, por exemplo, que os descendentes de escravos africanos levados para as Américas tenham usado esta linguagem da diáspora para dar sentido ao seu sofrimento. Os que regressaram nos meados do século XIX para fundar a Libéria e a Serra Leoa, interpretaram a escravatura como um acto providencial ordenado por Deus. Eles tinham sido eleitos para trazer a redenção ao seu povo. Não era sofrimento de borla, fazia sentido. Daí também a forte atracção que teologias como a dos Rastafari exercem sobre muitos. Estes também vêem no destino dos povos africanos uma promessa divina cujo desfecho será a terra prometida.
Insisto na etimologia da palavra “diáspora” para forçar a ideia de que o conceito é muito mais profundo do que o seu uso descuidado no nosso quotidiano sugere. A diáspora é uma comunidade moral que se identifica profundamente com o seu povo e com o seu lugar de origem. O seu exílio é apenas uma estação na longa marcha pela redenção do seu povo. Neste sentido, só num sentido verdadeiramente metafórico é que os moçambicanos fora do País podem ser considerados de diáspora. Mais próximo do verdadeiro significado deste termo foi talvez a condição dos moçambicanos que abandonaram o País para lutar pela sua liberdade. Nós, portanto os moçambicanos que se encontram fora do País actualmente, somos aquilo que na Europa chamam de “refugiados económicos” ou que a indústria do desenvolvimento considera manifestação de “fuga de cérebros”. Embora por razões mais do que óbvias prefira a segunda designação, ambas são profundamente problemáticas.
Refugiados económicos sugere a ideia de que os não-europeus que procuram fixar residência na Europa não têm outra razão senão a fuga às más condições de vida nos seus países de origem. É uma atitude tipicamente europeia, sobretudo quando tomamos em consideração o facto de que desde o século XV que a história de África é determinada por refugiados económicos europeus. Fuga de cérebros é apenas um erro de argumentação. Parte-se do princípio algo enigmático segundo o qual se os africanos formados que vivem além fronteiras tivessem ficado nos seus países de origem teriam sido melhor aproveitados. O atraso africano não se deve apenas à falta de quadros; é também devido ao mau aproveitamento dos quadros existentes.
Israel, o País que detém os direitos de autor sobre o conceito de “diáspora”, é um exemplo daquilo que as comunidades imigrantes podem ser para o nosso País. Se não houvesse tanto judeu fora do País apostado em dar o seu melhor pelo seu próprio povo, Israel não seria o que é hoje. Israel já há muito teria sido esmagado pelo despeito árabe. A diáspora é um ganho para quem sabe a usar. Durante a viagem que fez à Alemanha dois meses antes das eleições o presidente incumbido, Armando Guebuza, pediu ao empresariado alemão para ajudar na integração da “diáspora” moçambicana. Algumas coisas já estão a ser feitas neste sentido. O mais importante, contudo, é que dentro do País se discuta uma política clara e consequente de como vincular de forma institucional mais forte a nossa diáspora para que contribua ainda mais para o fomento da nossa terra.

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