Ideias para Debate

Monday, April 24, 2006

25 de Abril (2)

A 25 de Abril de 1974, eu era alferes miliciano, em Lisboa. Aqui vai o relato do que foi o meu dia:

Quando ocorreu o 25 de Abril eu era um dos oficiais milicianos mais antigos no Segundo Grupo de Companhias de Administração Militar.

A situação política do quartel era claramente anormal. Era o local onde estavam a ser acumulados todos os oficiais milicianos “suspeitos políticos” depois de terem sido reclassificados devido a terem ficha na PIDE.

Isto tinha dado como resultado que, de cerca de 50 oficiais que haveria no quartel naquela altura talvez mais de 40 eram “suspeitos políticos”.

Oficiais do quadro havia o comandante, se bem me lembro era um major Azevedo, o segundo comandante (não recordo o nome mas tinha a alcunha de Tigre!), um capitão, que era uma besta e tinha a alcunha de Boi, e mais dois ou três subalternos vindos de sargentos.

Dois dias antes do 25 de Abril fui abordado por um aspirante, João Anjos, que suponho que era do MÊS, que me informou que estava para breve o golpe. Para essa noite ou para a seguinte. Não acreditei.

Como nessa noite nada aconteceu, desliguei do assunto.

No próprio 25 de Abril eu era o Oficial de Dia ao quartel.

Durante a noite sou acordado telefonicamente por um amigo que pôs o radio junto do telefone para eu ouvir o comunicado do MFA. Afinal sempre tinha acontecido!

Telefonei para o quartel. Era de madrugada. Talvez umas 4 da manhã. Para meu espanto, do gabinete do telefonista atendeu o comandante! Segundo ele não estava a acontecer nada de especial!

Fardei-me e segui para o quartel, onde estavam a chegar quase todos os oficiais. Conforme entravamos o portão era fechado de novo e ninguém mais podia voltar a sair.

Quanto ao mais ninguém tomava posições. Por todo o lado as pessoas iam seguindo os acontecimentos pelo radio, mas lá dentro era como se estivessemos fora da realidade.

Tudo ficou assim até ao fim da manhã, altura em que me vieram dizer que estava ao portão um oficial do MFA que queria entrar. Mandei abrir e informei o comandante.

Fomos falar com o oficial (creio que também era major e, por coincidência, também se chamava Azevedo, mas não posso garantir, que já lá vai muito tempo). Estava o comandante, o segundo comandante e eu, como oficial de dia.

O homem do MFA disse que precisavam de fornecer alimentos às forças que estavam espalhadas pela cidade e necessitava de camiões para ir à Manutenção Militar buscar esses alimentos. Sabia que o nosso quartel tinha camiões.

Aconteceu então uma coisa que iria repetir-se. Olhei para o comandante, que não disse nada, e para o segundo comandante, que nada disse.

Informei o homem do MFA que lhe dava os camiões. Ele pediu oficiais para seguirem um em cada camião.

Mesma cena de antes com o silêncio dos dois responsaveis. Fui à sala de oficiais e pedi voluntários. Houve mais do que os necessários.

O oficial do MFA pediu, depois, armamento para esses voluntários e lá se repetiu a cena do silêncio. Forneci o armamento e lá seguiram eles.

Depois desta cena achei que não era possível continuar daquela forma. Eu estava a tomar decisões sem cobertura do comando da unidade e a assumir individualmente responsabilidades que poderiam custar caras se a coisa desse para o torto.

Convoquei uma reunião de todos os oficiais do quartel e exigi que, um por um, dissessem qual era a sua posição em relação ao que estava a acontecer. Como era de esperar a grande maioria aderiu ao movimento, incluindo, para minha surpresa, o segundo comandante.

O comandante, o capitão (Boi) e um ou dois dos subalternos do quadro não aderiram e foram postos sob prisão em quartos do quartel. Foram posteriormente entregues ao MFA.

A partir desse momento o quartel passou a estar ligado ao movimento e ainda participou, se bem me lembro, em alguns assaltos a casas da PIDE que existiam espalhadas pela cidade.

Bastantes anos mais tarde, numa celebração do 25 de Abril aqui em Maputo, vim a encontrar o tal homem do MFA que lá foi “desinquietar” os espíritos naquele famoso fim de manhã.

O João Anjos, também já esteve por cá, em Moçambique, mas na cidade da Beira.

E este foi o meu 25 de Abril. Nada de particularmente heroico, mas uma recordação inesquecível que hoje aqui partilho convosco.

24 Comments:

  • :

    Obrigada pela partilha. Não precisamos de heróis, esses... servem mortos.

    Bom 25 de Abril se assim o pensares ainda.

    :)

    By Blogger paper life, at 1:26 PM  

  • Obrigado. Ocorre-me apenas dizer que este tipo de relatos faz muita falta. Lembro-me que há anos um académico britânico, Lionel Cliffe, me perguntou porque ninguém ia conversar com muitos tanzanianos que viveram de perto a história da Frelimo. Eram de idade avançada e estavam a desaparecer. Na altura eu tinha a intenção de escrever uma tese de doutoramento sobre Mondlane, mas depois meti-me noutras coisas. Estes relatos pessoais são muito importantes.

    By Blogger ESM, at 12:49 AM  

  • a propósito deste teu relato lembro-me de ter tido o prazer de comemorar os 25 anos do 25 de abril (também) contigo. Um prazer convivencial mas também intelectual.

    Explico-me: lembro-me de na altura (o já longínquo 1999) muito ter ficado surpreendido com o afã de tantos moçambicanos em demarcarem-se desta data (também estava cá há pouco tempo). lembro-me da minha estupefacção quando ouvi um respeitado intelectual moçambicano dizer, em público, que esta não é uma data da história moçambicana.

    explico a minha ideia, algo para além da "história comum". enquanto em portugal há muito a ideia, mais por irreflexão histórica, não passará de uma ideia comum, que o 25 de abril causou a independência/descolonização (as palavras são utilizadas consoante quem fala), elidindo as guerras como causa dessa independência; aqui há a ideia de que o 25 abril nada tem a ver com moçamibque, uma espécie de epifenómeno estranho e longínquo. Isto é-me interessante como discurso retórico "endogenista" (se é que há esta palavra). Aliás melhor seria dizê-lo "endogenofilo". Mas é empobrecedor. É-o decerto em termos historiográficos, para perceber as dinâmicas desse período. Mas é-o fundamentalmente a um outro nível.

    O regime portuguès teve um dos grandes suportes as forças armadas (mantendo, embora, uma tradição de tentativas de golpes que já vinha de há muito, e que teve o seu apogeu na I republica). Essas mesmas forças armadas que o terminaram - muitas causas para isso terão colaborado mas decerto (e isso é repetidamente afirmado) a fundamental foi a exaustão causada pelas guerras em áfrica. Ou seja a guerra aqui (e em GB e em Angola) provocaram uma profunda transformação em Portugal, depois na Peninsula e no jogo internacional de então e da(s) década(s) seguinte.

    Ora num país em que constantemnte há um discurso (fundamentado) que afirma o desconforto de ser objecto de "globalização" esta posição "historiográfica" denota, por mero esforço de demarcação com Portugal, a incapacidade de ver neste episódio Moçambique como (poderoso) agente de "globalização" [o termo não se utilizava na altura mas podemos usá-lo para o então sem excessos de anacronismo]. Ou seja, demarcações identitárias endogenistas surgem como endo-amputadoras.

    Se calhar ficou confuso, mas é comentário. Bom 25 de abril machado. e obrigado por o comemorares. por não te amputares

    By Blogger jpt, at 3:05 AM  

  • Com todo o respeito, não creio que seja absolutamente necessário, do ponto de vista intelectual, ver o 25 de Abril como data histórica moçambicana. Muitos moçambicanos contribuíram bastante, mas é data histórica portuguesa. Os Acordos de Lusaka sim; a independência sim. E muitas outras datas. É bom recordar que o 25 de Abril não trouxe necessariamente melhor relacionamento entre Portugal e as suas colónias. Antes pelo contrário. Estou do lado do intelectual que disse não se tratar de uma data da história moçambicana, mas isso não é o mesmo que se demarcar.
    Abraços

    By Blogger ESM, at 7:51 AM  

  • ESM só posso respeitar, discordar. Sem polémica, acho que o escrevi está limpido. Entendível. Muito rapidamente, tipo "comment break" no trabalho, e portanto com imperfeições (ainda) mais óbvias: a Frelimo fez uma guerra com Portugal. O 25 de Abril é, em substância, o dia da derrota portuguesa (nos primeiros meses o jogo de forças em Lisboa não foi totalmente contra a continuação da guerra, mas é historicamente óbvio que ela acabou para a maioria aí), ao qual se seguiu o estertor de alguns meses, e processos de negociações. Não estou a equiparar a data aos acordos (Que têm, inclusive, a dimensão formal) e muito menos à independência. Não estou a dizer "comemore-se" (formalmente). Estou a pensar (penso) que a necessidade política de apartar as histórias implica uma simetria com o pobre pensamento em portugal que atribui a independencia/descoloniza~ção ao 25 de abril, sem ver ambos os processos como um corolário.

    Já agora, e nem é metáfora. Na baixa está o monumento aos mortos da I GM. Não é mesma coisa, mas uma guerra entre forças europeias foi considerada parte integrante da história moçambicana (a maioria dos mortos dos "aliados" foi moçambicana, já agora. E quantos da parte dos "alemães" também). Não estou a dizer faça-se um monumento, não me interprete mal.

    A questão é um bocado bizantina? Talvez, mas sempre me surpreendeu a recusa em considerar uma data chave, substantivamente significante de uma derrota militar do inimigo, como parte integrante da história. Não como A data. Mas como data.

    Acima de tudo minha interpretação dos processos de construção do discurso histórico.

    By Blogger jpt, at 9:58 AM  

  • claro que como v. diz "é história portuguesa, sim"

    By Blogger jpt, at 9:59 AM  

  • "É bom recordar que o 25 de Abril não trouxe necessariamente melhor relacionamento entre Portugal e as suas colónias. Antes pelo contrário." - ESM, este período só pode ser ligeireza de comentário bloguística. Uma data histórica não implica nada quanto ao seu resultado, por favor. Essa é a primeira questão. Uma data histórica pode significar desde corte de relações até casamento, passe a metáfora.

    Quanto a um segundo ponto, francamente. Visto no muito curto prazo o 25 de abril significou a abertura de negociações para a independência (julgo saber que 5 meses depois - um nada em termos históricos - estava acordado em Moçambique). Visto no longo prazo (Que é aquele que está no seu texto) caramba, entre estar em guerra nas colónias e ter relações (boas ou más) com países ex-colónias há alguma diferença. V. diz que as relações são piores? ["antes pelo contrário"] Caramba, isso é conversa de ultramontano colonialista em Portugal (Antigamente dava-nos bem, agora é uma desgraça)

    ESM eu sei que isto é apenas a caixa de comentários de um blog, mas caramba

    vai isto sem ponta de consideração de relações positivas ou negativas entre países

    "antes pelo contrário"?

    By Blogger jpt, at 10:06 AM  

  • Que necessidade temos nós de lhe chamar data histórica moçambicana ou portuguesa? Será preciso atribuirmos um desses qualificadores para reconhecermos valores tão nobres como os que estavam em jogo e triunfaram? Chamemos-lhe data histórica também em Moçambique, pois foi o dia em que aqui, em todo este território, depois de um longo e duro período de ditadura, começou a despontar a liberdade de imprensa, de opinião, de associação. Foi o dia em que, culminando os esforços de portugueses, moçambicanos e os demais de ex-colónias portuguesas, se começou aqui a ouvir falar de uma terra em que era o povo quem mais ordenava. A cantar abertamente “Não há machado que corte a raiz ao pensamento porque é livre como vento, porque é livre”. Em que muitas consciências se abriram, em que começaram mesmo a nascer novas relações humanas, com muito mais respeito e interesse pelo “outro”. Essas relações, evoluíram, por exemplo, para o entusiasmo colectivo, por toda a parte, mesmo antes da independência, da alfabetização. Se a 25 não se compreendia muito bem o que se estava a passar, pouco tempo depois, e apesar das forças de resistência, tudo mudou. É verdade que ainda havia um caminho a percorrer para a independência, para a soberania, mas algo muito positivo estava já conquistado.
    Mesmo sem ser feriado nacional, o 25 de Abril deveria ser melhor assinalado em Moçambique, e mais valorizado nos currículos escolares, pelo muito que tem de positivo, de exemplar e talvez único na História Universal dos tempos modernos: o último golpe a uma ditadura com quase meio século de existência usando flores, poesia, canções e muita, muita solidariedade e fraternidade. Só teríamos a ganhar com isso. Foi assim que o vi e vivo sempre cá dentro de mim!

    By Blogger F. Ribeiro, at 12:17 PM  

  • Mais uma vez com todo o respeito, insisto que o 25 de Abril não precisa, do ponto de vista intelectual, ser considerado data da história moçambicana. O meu comentário dirigia-se à confusão entre desmarcação (que acho incorrecto e insensato também pelas razões apontadas por Fátima Ribeiro) e data da história moçambicana. Que eu saiba, Israel não considera o fim da II Guerra Mundial data histórica, mas não se desmarca. É só disso que estou a falar. Agora, se o 25 de Abril tivesse conduzido a um melhor relacionamento entre Portugal e suas colónias com implicações para o nosso próprio devir histórico, haveria razões para o considerar data da história moçambicana. Isso não aconteceu. Portugal manteve as mesmas atitudes coloniais através de intromissão descarada em assuntos internos dos nossos países. O 25 de Abril foi a libertação dos portugueses e contém ensinamentos importantes, como muitas outras efemérides. A independência do Zimbabwe, o fim do Apartheid na África do Sul, a independência da Namíbia, etc., etc. datas da história desses países para as quais os moçambicanos deram muito de si. Não nos devemos desmarcar delas, sobretudo porque contam coisas interessantes como, por exemplo, a epopeia da liberdade.
    Abraços

    By Blogger ESM, at 12:54 PM  

  • Talvez me engane, passou muito tempo, mas fiquei com a ideia de que tinha sido o Presidente Samora Machel quem disse que a Guerra Colonial foi a universidade dos militares que fizeram o 25 de Abril.
    Não, o 25 de Abril é português, mas por causa dele, aquela guerra acabou mais cedo e poupou muitas mortes, dos dois lados. E por isso (também) foi importante para todos.
    Vivi euforicamente as duas datas. Mas, apesar de guardar como dia mais feliz o 25 de Junho, não me canso de comemorar Abril, também!!

    Abraço, Machado, obrigada pelo teu 'post'!, IO.

    By Blogger IO, at 5:06 PM  

  • ESM acho que apresentei as minhas ideias (não muito veementes, não é assunto crucial) o suficiente para naõ me repetir. E a discussão será estéril sobre o assunto. Eu, acima de tudo, reflicto aqui sobre os processos de consturção da história. EEstou em total desacordo consigo, e não tanto sobre uma data, e sua importância.

    Posso elaborar um pouco, em registo de conversa, que naõ de polémica. Tive o privilégio de assistir à inauguraçaõ do monumento em Marracuene (1997?). Achei (e acho) interessantissimo, a comemoração de uma batalha contra os portugueses que se saldou numa derrota. Tenho uma ideia, que está integrado num muito normal processo de mitificação do passado (acho que todos os países o procuram), uma "moçambicanização" do então, um anacronismo. Repito, normal, não estou em registo de crítica. Aquela batalha, aquele momento faz parte da história de moçambique e a forma como uma derrota é lida hoje é basto interessante. O meu espanto (Atenção, não estou a fazer uma simetria, essa sim completamente anacrónica a ser feita) é não integrar (naõ de forma festiva, comemorativa, mas sim conceptual) uma vitória estrondosa, o tomar parte do desabar de um poder colonial que se quis imperial. Não estou, e acho explícito, no registo da "comunidade" ou da "história comum" com conotações sentimentais-identitárias. A minha leitura é essa, e entendo-a como fruto de uma demarcação intelectual-político-historiográfica. Nada pecaminosa, normal. Mas estratégica, como qualquer leitura.

    By Blogger jpt, at 6:24 PM  

  • Muito maior é o desacordo consigo com a conceptualização de data histórica. O espartilho (muito agradável, diga-se) destes comentários não será o suficiente. Mas V. dá-me uma ideia moralizante da história que não me seduz: "Agora, se o 25 de Abril tivesse conduzido a um melhor relacionamento entre Portugal e suas colónias com implicações para o nosso próprio devir histórico, haveria razões para o considerar data da história moçambicana. Isso não aconteceu. Portugal manteve as mesmas atitudes coloniais através de intromissão descarada em assuntos internos dos nossos países."

    A data não é histórica porque Portugal manteve uma má relação. Acho que aqui se implica que "histórico" é algo que é positivo, e eu não partilho nada dessa opinião. Resta-me respeitar e discordar.

    Em registo polémico, ainda que desnecessário, lembro que se Portugal "manteve as mesmas atitudes coloniais através de intromissão descarada em assuntos internos dos nossos países." isso parece-me contraditório com a inexistência, que se depreende do seu comentário, de "implicações para o nosso próprio devir histórico,". Eu não gosto do jogo de citações, sempre disponíveis para truncar pensamentos alheios e também facilmente rebatíveis. Não quero fazer isso. E naõ quero continuar nisto porque pode parecer o português a defender Portugal, o que não é o caso (e isto sem ponta de anti-patriotismo). Pura e simplesmente parece-me que se o meu país se intromete então influencia (mesmo que pouco) o devir histórico (e se fosse mesmo pouco então não haveria remoques 30 anos depois). Este é registo de polémica, ainda que pacífica. É-me muito mais interessante ver como se constrói a história, das polémicas políticas outros que tratem. Pelo menos neste caso, poluído por muitos preconceitos.

    A Fátima Ribeiro pergunta (retoricamente) do que é que interessa se é data de um ou outro país, pois o que interessa são os valores que nela se afirmaram. Pois, como cidadão também acho. Mas noutro registo tenho curiosidade sobre como lemos essa data, para além dos valores então reclamados/Afirmados. Ou por outro, quais os valores que nos organizam na leitura deste passado recente. E aí acho pertinente ultrapassar os valores morais.

    ESM diz-me que Israel não entende o fim da II GM como data histórica. Não sei em que contornos o diz (Comemoração oficial?). Mas se é neste não é esse que refiro, não me passa pela cabeça tal elevação de uma data destas a momento de calendário. Estou a falar de reflexão historiográfica. E não acredito que haja apagamento em Israel dessa data, ainda que o estado de israel não estivesse em luta nesse momento (por inexistência), que esse final não seja considerado momento histórico do devir local.

    O Acto colonial foi uma política portuguesa que implicou alguma mudança na política colonial em Africa. Fará parte da história de Moçambique ? (com toda a influência no seguimento de políticas de colonização em moçambique)

    Mais, considerar isso será apoucar a identidade histórica do país Moçambique? Acho que não, absolutamente que não.

    Mas vai longa a argumentação, sob esta bela "inutilidade" de blog. Nao tenho mesmo mais nada a resmungar sobre o assunto, já que frisei o meu afastamento a uma leitura positiva dos acontecimentos históricos

    By Blogger jpt, at 6:45 PM  

  • Bom, acho mesmo que o blog não é o lugar ideal para discutir concepções de história. Nem era essa a minha intenção. Entendi simplesmente a estupefação em relação ao intelectual moçambicano que disse que o 25 de Abril não era data da história moçambicana como uma reprimenda aos mocambicanos por recusarem aceitar a importância dessa data. E disso discordo. Não sei que mais era preciso fazer em Moçambique - fora da proclamação do 25 de Abril como data histórica - para documentar que se não se alheia da sua importância.
    Abraços

    By Blogger ESM, at 11:02 AM  

  • ESM, discordância e/em interpretação não é reprimenda. De resto até outro bate-boca mais produtivo

    By Blogger jpt, at 1:54 PM  

  • Eu propunha que vocês, amigos ESM e JPT, e todos nós deixássemos de ver a questão unicamente em termos de relações Moçambique-Portugal e fizéssemos algumas reflexões e comparações.
    O 1 de Maio, data histórica internacional e feriado nacional, foi/é data histórica moçambicana? E o 8 de Março, data histórica internacional assinalada oficialmente em Moçambique? Não tivemos até o famoso Centro 8 de Março, de criação estatal? Por que razão as aceitamos, acarinhamos e promovemos? Será que foi da noite para o dia que os trabalhadores ou as mulheres ganharam mais direitos, ou pelos valores que representam, independentemente do lugar onde se deram as lutas ou da nacionalidade de quem nelas participou? E, tendo os episódios que naquelas datas aconteceram sido tão distantes de nós, como acabaram por ter a enorme carga simbólica que têm? Não terá sido porque os outros souberam valorizar o que viveram ou se passou nos seus países e souberam fazer o seu “marketing social”?
    Passe a ignorância da minha pergunta, mas haverá datas assinaladas como dias internacionais do tipo “dos estudantes”, “da liberdade de imprensa”, etc., etc., que tenham sido criadas por nelas ter acontecido algo em países de língua portuguesa, ou em algum país com baixo índice de desenvolvimento? É que para mim o 25 de Abril só não tem essa mais-valia internacional porque Portugal é o país que é na economia-mundo e não tem força para fazer valer o que é seu. Quem sabe um dia não será o 25 de Abril descoberto por outros – tal como aconteceu ao fado – ganhando então outro estatuto?
    Desculpem esta análise, que não é nem de historiadora nem de socióloga, mas apenas de alguém que só quer que valores como paz, fraternidade, liberdade e justiça, e os esforços para os alcançar sejam reconhecidos e triunfem no mundo.

    By Blogger F. Ribeiro, at 11:23 PM  

  • Fátima tu deslocas e ainda bem a questão para outra, a da demarcação do calendário simbólico e das causas a defender. Teria muito interesse em saber algo desse "calendário religioso" do hoje, dessa laicização do dia-a-dia, do dia de santo X para dia da causa/corporação X. A que ideias e forças obedece, qual o processo de constituição desse novo ritmo. Nunca li nada sobre isso. E abre-me o apetite!

    Quanto ao resto, e sendo maçudo, não me referia às relações entre Portugal e Moçambique em sentido estrito, apenas referi que para mim há uma demarcação historiográfica (e ideológica) que elide uma data que é uma vitória dos movimentos de libertação africanos - no fundo isto tem mais a ver com a minha leitura das dinâmicas que causaram o 25 abril. Mas não só, mas já o pus acima.

    By Blogger jpt, at 12:47 AM  

  • Bom, é difícil discutir com alguém que intervém para dizer que não quer discutir, mas vai emitindo opiniões, interpelando, etc. Discutimos ou não? Onde?
    Fátima Ribeiro, por mim todos os dias podiam ser dias feriados. Motivos haverá sempre. É só puxar pela cabeça. Gostava apenas de propôr que se interpretasse a reluctância em atribuir importância ao 25 de Abril - se é que existe essa reluctância - como algo ligado à atitude do partido comunista português que quiz fazer depender a independência dos nossos países do fim do fascismo. Vamos acabar com o fascismo e tudo o resto virá. Nesse sentido - e não na vertente normativa sobre a qual a Fátima Ribeiro, com razão, insiste - de facto o 25 de Abril é completamente marginal a Moçambique. É coisa de portugueses. Com ou sem ele, a independência teria vindo.

    By Blogger ESM, at 6:58 AM  

  • ESM, falando francamente, então deixe-me traduzir para o meu português, de calão (suave) lisboeta, a ver se me faço entender. Não quero discutir, aka, "não quero desatinar".

    Eu interpretei, errado ou não, uma leitura da história. Uma construção da história. E interpretei do porquê assim. Opinei também sobre isso.

    ESM, V. pressupõe nessa interpretação uma reprimenda. A conversa está poluída de início, não estamos no mesmo registo. E isso notou-se (ou, pelo menos, eu notei) [Eu posso-me perguntar, e pergunto-me, baseado em que estatuto próprio me porei eu a dar reprimendas? E a propósito de quê surge essa ideia?]

    Essa diferença de registo enviesa, e leva-nos a falar de coisas diferentes. E se discutir no mesmo registo sim, numa diferença assim isto mais comment menos comment azeda. Para quê? Eu acho inútil (o assunto é uma minudência), inconclusivo (os tais registos diferentes). E desagradável, por respeito pela casa/blog alheia, claro, e, fundamentalmente, para consigo.

    E, creia-me, é de assuntos diferentes que temos andado a falar desde o quase-início desta caixa de comentários. (é normal falar de coisa algo diferentes, os assuntos interligam-se. Mas aqui a diferença é mais vasta). Isso até este seu último comentário onde agora sim estamos no mesmo registo. E assim poderíamos/poderemos discutir imenso, protestar até. Discordar completamente, inconcluir. MAs seria/á válido.

    Acho que sim, que é um dado bem interessante, a influência que a visão/opinião do PCP como dado (histórico) para entender esse afastamento, até porque era esse partido a força mais estruturada na oposição portuguesa e, presumo, aquela que tivesse mais relações com os movimentos de libertação. Donde pudesse ter provocado acções ou reacções (intelectuais). E já agora essa visão não será somente do PCP, acima explicitei que a ideia que a queda do fascismo provocou as independências atravessa o espectro político português, e um pouco o intelectual. Desde os tempos da guerra até aos de hoje. Confrontando assim concepções outras sobre o mesmo processo (e respectivas datas) Mas aquele é um pensamento pobre (e aqui estamos totalmente de acordo).

    Como vê, e sem reprimenda nem ironia (apenas um pequeno remoque, claro), podemos especular sobre isto sem discutirmos concepções história numa caixa de blogs.

    Cumprimentos. E a todos um bom fim-de-semana. No meu caso exo-bloguístico.

    By Blogger jpt, at 10:28 AM  

  • Nunca propus que fosse feriado, Elísio Macamo, nem o faria, por razões práticas. Já temos feriados e tolerâncias de ponto (e abertura para potenciais “pontes” da iniciativa dos trabalhadores) mais do que suficientes no mês de Abril para eu o deduzir muito pouco produtivo no país. Em termos de produção de riqueza material, claro! Dei até o exemplo do 8 de Março, que não é feriado, mas assumido, assinalado, promovido de outras formas.
    Aqui recordo a história das duas datas que apontei ao fundamentar o meu ponto de vista:
    1º de Maio: “Em Chicago, EUA, 30 mil trabalhadores abandonaram as fábricas no dia 01 de maio de 1886 e se concentraram na Haymarket Square, reivindicando uma jornada de trabalho de 08 horas. A repressão policial matou quatro trabalhadores e feriu vários outros. Em homenagem às vítimas, o Congresso Socialista de Paris, em 1889, escolhe a data como o Dia Internacional do Trabalhador.” (http://www.fundaj.gov.br/docs/datas/mai.html)
    8 de Março: “Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".(http://www.eselx.ipl.pt/ciencias-sociais/Temas/direitos_mulher)
    Atenção: Chicago e Nova Iorque.
    Outro aspecto a notar: Só 53 anos depois das ocorrências o 8 de Março passou a ser comemorado, como hoje é, pelo mundo fora. Em Moçambique, só 118 anos depois, em 1975.
    Minha conclusão: A História tem o seu tempo, e outros tempos virão.

    By Blogger F. Ribeiro, at 11:53 PM  

  • Prontos, parece que tudo já está esclarecido. Que pena, Fátima Ribeiro, que não estivesse a propôr mais um feriado. Aí tinha o meu apoio, só pelo dia feriado. JPT, é interessante que só agora que decidiu traduzir para o calão português é que o percebi... mais uma interpretação? Bom fim de semana a todos!

    By Blogger ESM, at 6:08 AM  

  • As numerosas intervençoes sobre o “25 de Abril” aqui presentes parecem-me mto pertinentes. Na realidade exitem aqui 2 problemas diferentes, certo ligados e sem duvida indissociaveis, mas que nós temos todo o interesse em destinguir para clarificar a analyse: o primeiro refere-se à relaçao entre Portugal e as ex colonias; o segundo ao 25 de Abril enquanto “data historica”.
    Este ultimo problema remete-nos ele mesmo para duas questoes: 1) Sera que o “25 de Abril enquanto percursor de dinamicas de mudança pode ser considerado uma “data historica” para as ex-colonias portuguesa , nomeadamente, Angola, Cabo-verde, Guiné-bissau, Moçambique e Sao Tomé e Principe? Em outros termos, à luz das dynamicas de estruturaçao social dos paises supracitados qual é o significado de uma “uma data historica” ? 2)O que ha de comun entre o 25 de Abril - lugar de “sacralisaçao de liberdades”, “ponto de ruptura”, “inicio de emancipaçao” e feriados nacionais?
    Nada mais que, a Republica Portuguesa, tal como foi “fixada” e “ simbolizada” em contextos historicos especificos. Contextos estes que deixaram a sua “marca indelevel” em Angola, Cabo-verde, Guiné-bissau, Moçambique e Sao Tomé e Principe. Espolio de uma memoria do passado. A questao que se nos coloca agora é de saber se por um lado essa “memoria do passado” é nos nossos dias, para os nossos paises, realmente a imagem fiél desse passado Ou se, por outro lado, se trata simplesmente de reviver a memoria do 25 de abril , no caso para os comentarios mais diversos... ou para mais um dia de repouso...

    Entretanto, estou em querer que no inicio deste seculo XXI, a confrontaçao crescente entre as identidades socais locais, no contexto global mundial, tende sofregamente para à busca de soluçoes, que passam pela construçao da “identidade nacional” nos jovens paìses em questao.

    Contudo, estou de acordo com um certo numero de intervenientes que este debate é deveras complexo para ser restringido ao nivel do blog. Eu mesma , nao respondi a grande numero de questoes colocadas. Por isto, seria interessante poder organizar um debate, onde este assunto podesse ser tratado numa prespectiva multidisciplinar... lanço o repto a quem de direito.
    Cordialmente,
    Iolanda Aguiar

    By Blogger yolaguiar, at 2:19 AM  

  • como é que sendo o oficial de dia dormia fora do quartel?CP

    By Blogger - 1/2 Kg, at 10:12 AM  

  • Com um oficial de dia
    Que dormia
    Fora do quartel,
    A tropa que ali havia
    Por certo vivia
    Num grande bordel.

    By Blogger asm, at 1:57 PM  

  • By Blogger Zheng junxai5, at 8:43 PM  

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