Ideias para Debate

Friday, July 15, 2005

Vicios

Do Manuel Mangue recebi este texto sobre alguns vícios com que vivemos:


O DIA E VIDA DO VICIADO

A iniciação é sempre com algo mais leve. Começa-se com uma ida ao cartório ou outra repartição pública. No caso do cartório e para a autenticação ou reconhecimento de documentos, depois de espera de hora e meia aparece um funcionário (o “do refresco”) mais “gentil e atencioso” para lhe fazer “um favor”. Neste caso, o vício custa apenas um refresco; ou seja, um simples “não vai deixar do refresco?”. Assim, de documento em documento e de repartição em repartição, o requerente está alucinado, movido à e entre “o chefe ainda não despachou” e “não vai deixar do refresco” (nesta categoria há documentos e documentos e, conseqüentemente, refrescos e refrescos). Uma vez refrescados, dias e até meses de negligência, podem desaparecer em minutos.

Aí, você quer mais: o vício sobe de categoria. Não tão pesado, mas, nem por isso, leve. É logo a seguir, quando se vai ao banco. São 9:00h e pouco mais ou menos de uma centena de pessoas estão já à espera. Umas por um levantamento e outras, por incrível que pareça, pleiteando por um depósito. À sua frente, apenas três caixas. Entre eles, um distribui pessoalmente os talões de depósito; depósito este que tem de ser até as 11:00h, antes que caia o sistema, seja na agência da Av. 24 de Julho, na da Av. Karl Marx ou outra que quem tenha como se locomover possa acorrer. Viciador e vício vem de 4X4, um dos símbolos do luxo sobre o lixo; do dinheiro sem cultura que, por isso, este, o 4X4, serve também de cartão de visitas. É um conhecido seu que chega perguntando: “tás aí? Deixa que eu conheço...”. E de facto conhece, já que o processo se desenrola sem nenhum escrúpulo ou pudor: em menos de dois minutos, maços de notas e guia de depósito são entregues e recebidos, introduzidos por apenas um “como é que é?”. Este vício, embora não seja do tipo endovenoso, é, sem dúvida, injetável, já que alucina rapidamente: a sensação de êxtase e bem estar são imediatos para quem se beneficia. A alucinação move-se à e entre a incompetência bem vestida (de terno e gravata ou muito bem penteada/escovada) e uma massa disforme e apática: apesar de alguns estarem a espera há pelo menos hora e meia, ninguém diz nada. É comum, logo, normal.

Mas o dia ainda está por terminar. Quando se pensa que não tem como piorar, mais um vício se te apresenta. Aliás, o uso contínuo do vício tem dessas coisas. Depois de muito tempo, o vício pede cada vez mais e mais e... eis que mais um “como é que é”, vindo algures da estrada te é direcionado. E, mais uma vez o dinheiro aparece inversamente proporcional à cultura: 16:30h, em plena hora de ponta, a saudação vem de um estacionamento duplo, bem no meio da pista de rodagem. Bastam os sinais de emergência para que a situação seja interpretada como normal. Havia, de facto, mergência na acção, isto é, embora 30m do local da saudação houvesse onde estacionar, para este vício é importante parar onde possa ser visto. Afinal, se a competência está aquém do cartão de visitas, é bom que este seja bem apresentado. Vale salientar, desde já, que a alucinação, neste nível, paira entre as almas indolentes - para as quais a aparência vale mais que qualquer conteúdo – e o glamour da ordem já estabelecida que contamina inclusive os mais sensatos.

Por falar em conteúdo, o que se segue é uma sucessão da falta dele. Mais uma vez, o vício tem dessas coisas: à semelhança dos demais vícios, no estágio mais avançado a pessoa começa a falar coisas sem sentido, no nosso caso, incrementada por um certo, porque não usar o termo, show off: terreno adquirido ou, como foi concretamente, os milhares de dólares deixados numa clínica para o tratamento de um suposto enfisema pulmonar. A expressão é tão convincente que se chega a ficar em dúvida: será que a dois dias o meu interlocutor estava com a tal doença ou, como depois percebi – num país em que são as mesmas doenças endêmicas que mais matam – é aparentemente chique usar esses nomes, ainda que para designar a malária.

Já nesta fase, no vicio da aparência, tudo gira em torno dela: ela é o centro, é o princípio e fim; é a razão de vida. É por ela que se respira, pensa e vive. Consome-se aparência no estado puro; aparência por ela mesma...

Enfim, aos poucos instaura-se na sociedade um modo de vida. Tece-se o tecido que a governará e em que no submundo dos vícios (do oportunismo) tudo se consegue: do conhecer e ser conhecido para que os papéis andem; em que no submundo dos vícios - (da aparência) que, diante do estabelecido, torna-se obrigatória – tudo se consegue: mostra-me o que pareces que te direi quem não és, mas te tratarei como se fosses. Ao subconsciente coletivo cabe o papel de não admitir nada que não se assemelhe aos padrões estéticos (hipócritas) estabelecidos...

Com isso gira a sociedade sobre os detritos ativos da podridão... dos vícios. Só assim é que gira. Coitada da minha mãe que não conhece e nem parece...

1 Comments:

  • Machado da Graça, tenho estado a acompanhar impávido e sereno entre aspas todos os debates que têm surgido neste espaço. Parabéns por o teres criado!Podes ter a certeza que muitos gostam.
    Não consegui conter a minha impavidez e serenidade quando li o texto enviado por Manuel Mangue, muito interessante o texto. Interessante por duas razões que se aglutinam: é uma situação engraçadatriste. (Assim mesmo, tudo junto).
    Por essa razão, gostaria de dar o meu modesto parecer. O que o Dr. Mangue nos apresenta no texto, julgo não constituir novidade- pelo menos no seio do cidadão moçambicano. Suponho que, tanto o Mangue como outros milhares de moçambicanos incluindo a mim, ja passamos por uma situação igual em que nos fora pedido deixar, para agilizar o processo em alguma instituição do Estado, "o do refresco". Muitos de nós corroboram na matança dessas sedes. É ai onde julgo se alojar o problema : ajudar a criar o VÍCIO de tomar refrescos "em serviço"-mesmo, se calhar em dias de muito frio em que não seria talvez necessário deixar nenhum "do refresco" para o processo ser despachado.
    E já agora, por falar em ter a obrigação e direito/dever(?) de deixar os tomadores de refrescos satisfeitos e outros- os dos cigarros- lembrei-me de um artigo enviado neste mesmo espaço pela Olivia Faife sobre o conceito de cidadania moçambicana. Isso mesmo, "ser cidadão moçambicano, o quê?". Para sustentar sua opinião, a Olivia apresenta o conceito de cidadania citando vários autores desde Marshall a Covre. Não irei aqui repetir as visões daqueles estudiosos mas do que se pode resumir do conceito é que, citando Saviani(1993), ser cidadão "significa ser sujeito de direitos e deveres". Ora, estou a pensar neste conceito e sugerir que se faça valer no seio dos moçambicanos porque, denunciando esses tomadores de refrescos e os fumadores, desencorajando-os completamente, seria exercer o nosso direito de cidadania.
    Poderá alguém pensar que é um papo furado esta minha ideia, que é a mesma história que estão fartos de ouvir, que ninguém tem coragem mas, como diz Scherer-Warren(1995),"a cidania é algo a ser conquistado..."Então, podemos e devemos paulatinamente acreditar que temos o direito e dever de participar na melhoria de vida da nossa sociedade, do nosso País.
    Fazer simples constatações de fenómenos maus que acontecem nas nossas instituições é continuar alimentar o espírito do deixa-andar.

    By Blogger Adelio Dias, at 4:57 PM  

Post a Comment

<< Home