Ideias para Debate

Tuesday, April 17, 2007

LUTO PESADO

Na sua Carta Aberta o embaixador Ferrão refere a carta de Gabriel Simbine, publicada no Notícias de 3 de Abril. Aqui vai essa carta:

MOÇAMBIQUE DE LUTO PESADO

Sr. Director

Mais uma vez Moçambique está de luto. O maior na sua história de 30 anos. Um luto que podia ter sido evitado se os nossos compatriotas do Ministério da Defesa Nacional tivessem servido, ou tomado como sinal de alerta, o incidente de 28 de Janeiro passado.

O senhor Presidente da República deve, em nome do povo, pedir e exigir responsabilidades ao Ministério da Defesa Nacional, na pessoa do ministro titular da pasta, do chefe do Estado-Maior General, dos comandantes responsaveis pelos departamentos e sectores do aparelho administrativo do Ministério da Defesa Nacional.

Temos dificuldades de encontrar o termo que verdadeiramente traduz o que faltou para prevenir ou evitar a tragédia de 22 de Março último, já que a explosão de 28 de Janeiro passado não serviu de alerta aos concidadãos responsaveis pela defesa não só da integridade territorial nacional, mas também das pessoas e bens materiais de Moçambique.

O termo será, ou não, incúria, negligência, incapacidade, incompetência ou “deixa-andar? As cheias e inundações que assolam o norte e o centro do país são calamidades naturais de que nenhum governante ou governado pode ser responsabilizado por elas. Somos um país de desgraças. Ainda não avaliámos em definitivo os efeitos das cheias e inundações e, no dia 22 de Março, fomos apanhados de surpresa com as explosões do paiol de Mahlazine, um sinistro que vitimou mais de 100 vidas humanas e mais de 400 feridos, além da destruição de casas de habitação e estabelecimentos comerciais.

Os orgãos de informação deram-nos a notícia de o Preesidente da República ter criado uma comissão de inquérito. Esperamos que os elementos da comissão sejam honestos e homens de um espírito de frontalidade, para apontar os erros e falhas e indicar os responsáveis para se começar a corrigir ou emendar e até prevenir a ocorrência de situações dramáticas desta natureza. Nós, moçambicanos, infelizmente, não temos a cultura e a consciência de sentir a responsabilidade e pedir demissão perante uma tragédia de tamanha envergadura.

Naquela noite de 22 de Março ouviu-se uma voz dizendo: “eu demito” e não se identificou. Um nosso obrigado a esse anónimo. Já que as comissões de inquérito não resultam e o povo não tem coragem e determinação de exigir abertamente a transparência daqueles que exercem e detêm o poder em seu nome, os males se acumulam e a confiança popular perante o Governo diminui. O cidadão moçambicano, em vez de ter respeito e como tem medo do seu governante, não denuncia para não sofrer represálias.

O filho ou simplesmente familiar de um ministro, governador ou director ganha o estatuto de tubarão ou intocável, isto apesar de o primeiro Presidente, Samora Machel, ter dado uma lição de os seus filhos serem tão cidadãos iguais a qualquer um de nós perante a lei, autorizando a prisão por 48 horas do filho Idelson por atropelamento além da instauração de processo e julgamento no tribunal. A lição e o exemplo não ficaram.

A verdade nua e crua é que não se critica um governante em Moçambique, incluindo filhos e familiares. Em Moçambique os tubarões e intocáveis servem-se do poder não como instrumento para servir o povo, mas como instrumento de acumular riqueza e servirem-se a si próprios, filhos, familiares e amigos. A crítica e autocrítica estão no cesto do lixo.

Desejo voltar ao assunto principal desta intervenção. Vou repetir. Os elementos que compõem a comissão de inquérito devem ser tão honestos e sérios no tratamento desta questão a ponto de não aceitarem a justificação do calor como sendo o factor causador do incêndio que fez explodir o paiol. Sem sermos especialistas de nada, sabemos da existência em alguns países de engenhos explosivos iguais ou semelhantes aos nossos e nesses mesmos países registam-se altas temperaturas iguais ou superiores às nossas, mas com o empenho do factor humano a funcionar em pleno nada de extraordinário acontece. Sem pretendermos ser orientadores do trabalho da comissão de inquérito, apenas desejamos deixar registrada a nossa opinião e observação de que a investigação não deve estar virada para o calor, mas sim para a gestão humana dos engenhos explosivos do paiol e o homem é o único ser do reino animal que sempre procura justificar as suas acções, justas ou não.

Os nossos compatriotas militares não podem utilizar o facvtor calor para esconder a sua incapacidade ou insuficiência no desempenho das suas tarefas e responsabilidades na gestão do armamento explosivo. Nós, a sociedade civil, chegamos à conclusão de que o dia 22 de Março de 2007 ficou marcado nas páginas da História de Moçambique e a marca é indelevel, devido à gravidade sem precedentes da destruição que causou. O combate à pobreza caminha a passos de camaleão porque no nosso seio existe corrupção sem corruptos e corruptores e existem crimes sem criminosos. Com mais de 30 anos de independência ainda não processámos um alto dirigente político ou económico não por inocência, mas por todos serem grandes tubarões e intocáveis. Estão todos acima da lei.

Estamos cansados que o factor calor está fora do baralho já que o Chefe de Estado comparou a destruição maciça a uma guerra. Só que a guerra não é do inimigo, mas ela é da nossa própria autoria.

Aguardamos com ansiedade e expectativa o desfecho do inquérito sobre o sinistro de 22 de Março de 2007.

Gabriel Simbine