Ideias para Debate

Monday, March 28, 2005

Cultura, identidade, etc

Depois do texto do Mia e da resposta de Patricio Langa recebi agora uma contribuição da Maria de Lurdes Torcato. Aqui vai ela:

“Identidade supra-identidades” ou finalmente um DEBATE!


A intervenção do Mia Couto chamada “oração de sapiência” – este nome também merecia uns comentários bem humorados – foi das produções intelectuais que mais brado deu no nosso círculo de amigos, conhecidos e concidadãos, nos últimos tempos. Está destinada a percorrer pelo menos o mundo lusófono, pela Net. Eu já a recebi de Angola no meu e-mail. A resposta assinada Patrício Langa também já circula e o Machado da Graça deve estar feliz porque o BLOG começou a animar!
P L afirma-se admirador de Mia Couto e chama-lhe “um dos nossos melhores escultores da palavra”, um elogio bem expresso que certamente deu satisfação ao elogiado, como deu a todos nós que gostamos do escritor. Diz que concorda com 90 por cento do conteúdo do texto sobre os “Sete sapatos sujos” e responde aos 10 por cento (ou ao último sapato), com que discorda. Talvez o Mia Couto não tenha tido tempo para se fazer compreender melhor, porque aparentemente deu a ideia de que estava a criticar os jovens, a “modernidade” do que se vê na TV e “desculturização”, equiparada à fuga às tradições, dos moçambicanos. Se eu li bem P L, foi isso que motivou a resposta dele e o título que deu “Os Alienados do Mia”. Eu não li o Mia Couto da mesma maneira, mas certamente porque temos todos sensibilidades diferentes e entre mim e o P L há uma geração ou mesmo duas de diferença. Mas apreciei a resposta dele que me encheu de esperança no futuro, não o meu bem entendido, mas o dos que tem idade para serem meus netos.
O P L até pode ser diferente da maioria, representar mesmo a nata dessa juventude que, hoje – como a juventude em todas as gerações – tanto irrita os mais velhos. Mas há verdades que têm de ser ditas. Vivemos mesmo à mercê de uma geração alienada. Os nossos meios de comunicação, incluindo as várias TVs - que me perdoem os que têm conhecimentos e maturidade bastantes para não serem influenciados por eles - são mesmo estupidificantes e alienantes. A que propósito é que se prestam a ser fiéis lacaios do consumismo que nos é vendido a todos sob com as mais diversas encadernações, desde o Dia dos Namorados – uma “tradição” da última meia dúzia de anos - até à “santa Páscoa”, que duvido saibam o que é? Uma criança de 6 anos com quem convivo, veio para casa na sexta-feira dizer que a professora (jovem) disse que era Páscoa e tinham de comprar um ovo de chocolate para comer na escola. A criança, por motivos culturais, em casa não ouviu falar de Páscoa nenhuma. Esta mesma criança a quem procuramos ensinar o que é uma alimentação saudável e racional, insiste em pedir “chips” iguais às que os outros meninos levam para lanche na escola e não gosta de levar banana porque lhe chamam macaco. Sabendo como é importante que a criança se sinta aceite pelos companheiros, a mãe vive um dilema e desabafa em desespero: “Só me faltava agora a ditadura do consumismo!”
Não estou contra a modernização, o apanhar o combóio do século XXI, só que no combóio vai muita carga deteriorada que temos todos de ajudar a deitar fora. O que devemos querer do moderno e do progresso, é aquilo que nos é realmente útil, que serve para nos libertar da ignorância e da pobreza, etc. etc. Não terei o mau gosto de repetir o discurso, mas concordo com ele. Quanto à imitação (também) do Ocidente, ela é inevitável. Do Ocidente (até agora) nos vem muita coisa útil, desde a cura para as doenças até aos mais avançados meios de comunicação. Não sei quem cunhou esta frase mas conheço-a como um interessante aforismo: “From the West, keep the best, leave the rest!” Infelizmente o que temos à nossa volta é o mesmo aforismo adulterado: “From the West, keep the worst, leave the rest”.
Deixem-me agora alargar-me um pouco sobre “tradição” assunto em que me sinto muito próxima do P L. Uma das coisas que me põe zangada é quando pergunto a uma colega, uma vizinha (de ascendência africana) porque fez isto, ou se sujeita aquilo, que não me parece bom para ela, me responde ( a mim que tenho ascendência europeia) com um olhar de pena pela minha ignorância ou desgosto pela falta de sensibilidade: “É a nossa tradição!” Fico calada mas de facto devia responder: “mas acha que eu não tenho tradições?” Na verdade tenho tradições, e se são inofensivas e até agradáveis como comer bacalhau no dia de Natal e dar presentes às crianças – não me importo de as seguir. Mas se entram em conflito com a minha liberdade de pensar e agir ou qualquer dos direitos que com tanto custo a humanidade conseguiu conquistar ao longo da história – aí não contem comigo.
Voltando ao que me trouxe aqui: parece-me que entre o P L e o Mia há convergência de ideias se levarem a discussão até ao fim. Escreve P L: Nessa busca (da moçambicanidade) quando muito só podemos inventar novas formas, novas maneiras, de ser, estar e sentir-se moçambicano. Estamos todos de acordo. Mas discordo que essa procura, culminando com uma invenção de “novas formas, novas maneiras, de ser, estar e sentir-se moçambicano” venha a dar na aceitação da “valsa das finalistas” ou do “véu e grinalda” no casamento. Que sentido fazem esses ingredientes hoje? A juventude criada na cultura onde isso nasceu, já não lhes liga. Porque haviam os moçambicanos, agora mais conscientes da sua identidade e orgulhosos da sua cultura (mistura de muitas culturas que por aqui andam até hoje) de as ressuscitar, em vez de fazer florescer qualquer coisa nova e tão diferente que o mundo olhe e admire? E acima de tudo, que os outros possam associar aos moçambicanos e só a eles? Essa seria a identidade supra-identidades que o Mia Couto parece antever e gostaria de acelerar.